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Privatizações

Uma das mais fortes componentes do programa de ajustamento prende-se com um vasto rol de privatizações. Agora é a vez dos CTT.
Apesar de existir uma multiplicidade de estudos que indicam que são mais as vantagens de manter determinados sectores sob tutela do Estado, o Governo português coadjuvado pelas instâncias internacionais insiste na privatização de sectores estratégicos. A desculpa é invariavelmente a mesma: são exigências do memorando. É evidente que nesta matéria o Governo está à vontade: também faz parte da sua cartilha ideológica o desmantelamento do Estado, desfazendo-se igualmente de sectores estratégicos e beneficiando a casta nacional e internacional.
O memorando da troika tem como objectivo abrir sectores da economia portuguesa. O Governo adopta a mesma bitola. Haverá quem ganhe muito com essa abertura, em Portugal e no estrangeiro. Note-se que estas empresas alvo de privatização são amiúde monopolistas e em larga medida protegidas da concorrência internacional. Os negócios são indubitavelmente apelativos.
O país, esse, perde. O que encaixa de receitas com as privatizações está muito longe de ser determinante para uma qualquer sustentabilidade da dívida e perdem os portugueses que passarão a pagar serviços mais caros, com menos qualidade suportados por mão-de-obra explorada. O país vê-se assim expoliado dos seus recursos para pouco ou nada ganhar com isso.
A médio e longo prazo assistiremos à presença cada vez maior de privados em sectores tradicionalmente públicos, sobretudo na área da saúde, uma das mais apetecíveis. A desculpa será a mesma: para regressarmos aos mercados precisamos de mais austeridade, para mantermos taxas de juros razoáveis precisamos de mais austeridade, logo mais privatizações, menos Estado, menos Estado Social. Seja o BCE, seja o BCE em conjunto com a Comissão Europeia. Haverá sempre um pretexto. Não há alternativas hoje, como não haverá nos próximos anos, enquanto insistirmos na actual receita.

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