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A saída da troika

São várias as vozes que não escondem o seu entusiásmo quanto à saída da troika, com o fim do programa de "assistência". A ideia é indubitavelmente profícua: estabelecer-se uma meta no horizonte mais próximo para justificar as doses cavalares de austeridade e sem que essas doses de austeridade sejam decisivas nos próximos actos eleitorais.
Quanto à saída da troika, esta não é sintomática de qualquer recuperação da soberania e eventual recuperação económica que sirva a maioria dos portugueses. Qualquer regresso aos mercados terá sempre uma protecção mais ou menos tácita: o Banco Central Europeu e respectivas contrapartidas. Paralemente, a recuperação da autonomia económica, com o actual enquandramento político interno é impossível. As instituições europeias e particularmente a Alemanha sabem que têm o melhor parceiro possível para levar a cabo as transformações que consideram necessárias. Esse parceiro é Passos Coelho (e seus acólitos) e essa é a pior notícia para Portugal.
Consequentemente, um hipotético regresso aos mercados (com ou sem programa cautelar, ou coisa que o valha) não resolve os problemas do país.
Por outro lado, as transformações que têm sido levadas a cabo pelo actual Executivo são, em muitos aspectos, irreversíveis: as alterações à legislação laboral e consequente desprotecção dos trabalhadores; as profundas alterações no funcionamento do Estado Social e subsequente enfraquecimento do suporte social; a desvalorização salarial; os cortes nas pensões; as elevadas taxas de desemprego, as reais taxas de desemprego; o enfraquecimento de boa parte do já anódino tecido empresarial português; as privatizações...
Sucintamente, com ou sem regresso aos mercados, o mal já está feito.
Por último, este governo tem uma agenda política que será consolidada custe o que custar. Boa parte do trabalho já está feito, destruindo conquistas sociais que dificilmente serão recuperadas (pelo menos a curto e médio prazo) e levando a cabo uma profunda transformação social que criou vantagem para muitos apoiantes mais ou menos conhecidos deste Governo.
Correndo o risco de fazer a apologia do negativismo, insisto: a saída da troika (haverá outra coisa com outro nome para substitui-la) e o regresso aos mercados com programa ou sem programa não representam uma alteração no rumo que o país tem levado. As principais transformações já foram efectuadas, embora ainda haja algum espaço de manobra para se ir mais além - são e serão alterações deliberadas e não apenas consequência de imposições externas. Enquanto não percebermos esta premissa estamos muito longe de poder contribuir para qualquer solução consonante com o bem comum - a verdadeira essência da política.

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