Avançar para o conteúdo principal

Funcionários públicos

Os funcionários públicos são indubitavelmente um dos alvos da austeridade em dose cavalar ou da reforma do Estado baseada em mais cortes.
Pedro Passos Coelho, no passado fim-de-semana, visou com particular impetuosidade os funcionários públicos. A ideia não é nova e já foi adoptada pelos seus antecessores: dividir para reinar, relembrando a trabalhadores do sector privado as pretensas benesses próprias do funcionalismo público. Este é um discurso que colhe.
Porém, importa não esquecer que a ambição deste governo, aproveitando a boleia da troika, prende-se com o enfraquecimento do Estado Social. Esse enfraquecimento e eventualmente destruição passa pela redução dos seus funcionários, enfraquecendo também as condições de trabalho, os vínculos laborais, aumentando, por exemplo, a carga horária - sinónimo de destruição de postos de trabalho, desvalorização salarial. Claro que há quem ganhe com o já referido enfraquecimento, até porque estas mexidas fazem pressão sobre o valor do trabalho que se estende a todos os trabalhadores.
Fala-se da existência de funcionários públicos a mais. Mas não estamos acima da média europeia. Da discussão fica de fora a existência de uma excessiva ingerência dos partidos políticos no funcionalismo público. Da discussão fica de fora a forma como alguns partidos políticos se apropriaram de parte da administração pública.
Quando se fala em reforma do Estado, na necessidade de mais cortes e até nas pretensas benesses de funcionários públicos, deixa-se, deliberadamente, de fora da equação todos aqueles que vivem à sombra de partidos políticos; fica de fora da equação, competência e exigência - elementos essenciais para uma administração pública eficaz.
Quando se fala em reforma do Estado e na necessidade de mais cortes, os alvos são funcionários públicos - a esmagadora maioria - essenciais para o funcionamento da Administração Pública, incluindo hospitais, escolas, serviços sociais. Estes são os alvos. E desengane-se quem pense que o Governo pretende melhorar os serviços públicos. Pelo contrário, pretende enfraquecê-los, atingindo não só funcionários públicos, mas também todos os outros cidadãos que assistem à degradação dos serviços públicos. Como já foi referido, haverá quem tenha muito a ganhar com esse dito enfraquecimento.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

O anacronismo do PCP

Domingos Lopes, destacado militante comunista, decidiu abandonar o partido e explicar o porquê desse abandono. As explicações deste militante vão na mesma linha de outros que se afastaram voluntariamente ou que foram convidados a sair e centram-se na aversão do partido ao diálogo, a dificuldade visível em lidar com a pluralidade de opinião, e na ortodoxia cega que este partido demonstra ter em relação ao que se passa no mundo. É por demais evidente que a saída do militante em questão não terá sido fruto do acaso, a pouco menos de duas semanas de um importante período eleitoral. As razões que estão subjacentes à saída de Domingos Lopes poderão não ser totalmente conhecidas, mas aquilo que é enunciado pelo ex-militante do PCP em matéria de visão do mundo e democracia interna do partido já é sobejamente conhecido. Aliás, as opiniões de dirigentes do PCP sobre regimes totalitários como o norte-coreano já não provocam espanto em ninguém. Dentro do partido há quem se reveja nototalitarismo ...