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Estados de alma

É curioso assistir às preocupações de Marques Mendes e, em particular, de Miguel Relvas sobre os estados de alma de membros ou do líder do outro partido que compõe a coligação.
Primeiro foi precisamente Miguel Relvas a referir esses estados de alma, afirmando que não era tempo para essas preocupações. Depois foi Marques Mendes a dizer que Governar não é compatível com estados de alma.
Esperamos ansiosamente, mas sentados, que tão ilustres figuras se refiram aos estados de alma dos cidadãos que, vivendo em graves dificuldades, vêem a sua situação piorar incomensuravelmente a partir do próximo anos. Em relação a esses cidadãos a quem é espoliado o que resta do Estado Social, que são encarados como sendo números, que são perseguidos pela súbita voracidade das Finanças, a quem é aplicado um sistema fiscal manifestamente injusto, a quem se convida a sair do país, nem uma palavra.
O "melhor povo do mundo", parafraseando o inefável ministro das Finanças - a esse melhor povo do mundo exige-se paciência. A esse povo impinge-se a cassete da inevitabilidade; a esse povo acena-se com melhorias que um dia chegarão e ameaça-se com um segundo resgate, com o aumento da austeridade e até, em alguns círculos, com a saída do Euro. Ora, pergunta-se a tão ilustres figuras acima referidas que opinião têm sobre o estado de alma de um desempregado, de um pensionaste em dificuldades a quem lhe é roubada parte da reforma, a uma família que conta no seu seio com situações de desemprego, ao jovem (ou, em alguns casos, menos jovem) a quem lhe é dito que a sua vida não pode ser feita no país onde nasceu. Esses são os estados de alma que verdadeiramente interessam e não aqueles pertencentes a oportunistas que hoje estão numa coligação, amanhã estarão na oposição com receitas diametralmente opostas àquelas que aceitam hoje, muito em particular no que diz respeito a aumentos da carga fiscal ou cortes nas pensões.

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