Avançar para o conteúdo principal

As lições do Gaspar

Por ocasião de um encontro do FMI e do Banco Mundial, o ministro das Finanças Português, Vítor Gaspar, deu Portugal como exemplo do que não se deve fazer. Seguramente outros, num futuro talvez não tão longínquo, façam o mesmo pegando nas palavras de Vítor Gaspar para mostrar maus exemplos.
O ministro das Finanças fala nos erros das políticas expansionistas, em particular dos anos Sócrates. Resta saber o que o impede de corrigir alguns desses erros, designadamente no que diz respeito às parcerias público-privadas. Ou o expansionismo é só para alguns casos? Não lhe ficaria mal reduzir o expansionismo de tachos e panelas que o circundam, só para dar mais um exemplo.
As lições de Gaspar, assentes na cegueira neoliberal que é tão do agrado do FMI e Banco Mundial (Gaspar fala entre amigos e para amigos), ignoram o abrandamento do crescimento das ultimas décadas, fruto do abandono do sistema de Bretton-Woods; ignora deliberadamente que o fosso entre ricos e pobres aumenta significativamente sob a égide do sistema que tanto defende. Assim como se esquece de referir que este modelo de capitalismo assente no sector financeiro, o mesmo que estigmatiza o expansionismo apenas tem beneficiado uma escassa minoria. Lembre-se que quando a maioria começar a sentir na pele as agruras do sistema, os fantasmas do passado regressarão. O crédito e o subsequente consumismo desenfreado já não escondem os baixos níveis salariais, o Estado Social, suporte das sociedades, vai paulatinamente desaparecendo.
As lições do Gaspar esbarram em equívocos e na própria história económica. Este vai ser dos últimos a acordar. Está demasiado tempo agarrado ao pensamento único.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Sobre os criminosos: Jair Bolsonaro

Odeio uma miúda de 16 anos, e agora?

É digno de registo verificar a quantidade de gente que odeia - o termo é mesmo o mais indicado - uma jovem de 16 anos, de seu nome Greta Thunberg, que tem andado por aí a lutar para que se responda à emergência climática. Se a forma escolhida pela jovem é a mais eficiente, é outra questão, mas mesmo que não o seja, nada justifica a torrente de ódio que por aí grassa. É também caso para se lançar um apelo a quem não só odeia Greta, como não se coíbe de andar pelas redes sociais a destilar esse ódio: façam uma introspecção. Procurem a origem desse ódio: é por se tratar de uma jovem? É por ser uma rapariga? É por ter mais massa cinzenta? É por ter coragem? Coisa que o frustrado de telemóvel na mão é incapaz de compreender, quanto mais e alcançar. Ou é pelo facto de ser uma jovem de uns meros 16 anos a falar a verdade que tanto custa ouvir? Será porque essa verdade, quando aceite, obriga a mudanças radicais? Ou será que a causa é bem mais singela? O ódio a si próprio. Coloquem a questão so…

Não há planeta para a globalização

No seu livro "Down to Earth" Bruno Latour afirma, sem margem para equívocos, que não existe planeta para a globalização, estabelecendo uma relação entre as desigualdades, a desregulação e as questões ambientais num contexto de morte da solidariedade dos mais ricos em relação a todos os outros. De resto, num planeta sem espaço para todos, qual o sentido da solidariedade e num cenário em que não existe um futuro comum qual a razão dessa solidariedade, quando o que interessa é sobreviver?  Latour refere a Cimeira de Paris, em 2015, como ponto de viragem. Nessa cimeira, as várias lideranças políticas ter-se-ão apercebido de que modernidade com quem sempre sonharam não passará de um mero sonho. Não há planeta para a globalização.  O filósofo, antropólogo e sociólogo defende a necessidade de repensarmos conceitos como a modernidade, as fronteiras, o global e o local, referindo igualmente a necessidade de se dar início a novos planos para habitar a terra. Este e outros pontos de parti…