Avançar para o conteúdo principal

O estigma do voto

É recorrente, e este blogue não será propriamente uma excepção, criticar-se a escolha dos eleitores, designadamente quando a mesma não se coaduna com as nossas próprias escolhas e quando o Governo entretanto eleito já se encontra em funções. No caso deste blogue fazem-se inúmeras referências à bipolarização das escolhas no período da democracia.
Todavia, não é meu objectivo dar lições de moral ou estigmatizar quem exerce democraticamente o seu direito e dever de votar, mesmo votando em quem eu não concordo. Antes prefiro abordar as consequências da tal bipolarização do que estigmatizar quem votou neste ou naquele partido.
Infelizmente, há quem não resista em fazer essa estigmatização, criticando incessantemente quem votou neste ou naquele partido. Ora, nenhum de nós é dono da verdade e embora a experiência nos ensine que os dois partidos do arco do poder não têm tido a melhor conduta ou produzido os melhores resultados, essa tem sido a escolha da maioria e como tal deve ser respeitada.
Podemos no entanto chamar a atenção para a relutância dos cidadãos em fazer novas escolhas e forçar outros caminhos. Assim como é importante sublinhar-se a acção da comunicação social e a sua importância nessas escolhas, nem que seja pela pouca ou nenhuma importância dada a partidos ou movimentos fora do tal arco do poder.
De qualquer modo, não me parece particularmente democrático insistir na condenação daqueles que ainda insistem em votar em quem tem contribuído de forma tão evidente para a nossa ruína. Será preferível argumentar em sentido contrário a determinadas visões e convicções sem no entanto estigmatizar quem pelo menos exerce democraticamente um seu direito. É mais profícuo contribuir para a mudança do que insistir em denegrir quem permanece imutável. Até porque erros, todos os cometemos e não vale a pena martirizar a pessoa, é preferível mostrar-lhe como a mudança é possível e desejável.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

O anacronismo do PCP

Domingos Lopes, destacado militante comunista, decidiu abandonar o partido e explicar o porquê desse abandono. As explicações deste militante vão na mesma linha de outros que se afastaram voluntariamente ou que foram convidados a sair e centram-se na aversão do partido ao diálogo, a dificuldade visível em lidar com a pluralidade de opinião, e na ortodoxia cega que este partido demonstra ter em relação ao que se passa no mundo. É por demais evidente que a saída do militante em questão não terá sido fruto do acaso, a pouco menos de duas semanas de um importante período eleitoral. As razões que estão subjacentes à saída de Domingos Lopes poderão não ser totalmente conhecidas, mas aquilo que é enunciado pelo ex-militante do PCP em matéria de visão do mundo e democracia interna do partido já é sobejamente conhecido. Aliás, as opiniões de dirigentes do PCP sobre regimes totalitários como o norte-coreano já não provocam espanto em ninguém. Dentro do partido há quem se reveja nototalitarismo ...