sexta-feira, 1 de julho de 2011

Austeridade

É prática comum em países em dificuldades - países que caíram na armadilha da dívida soberana; países que passaram a ser o alvo dos especuladores e que contam agora com a total subserviência do poder político face ao poder económico.
Portugal não é excepção ainda para mais com um governo que em campanha eleitoral já tinha prometido ir mais longe do que o memorando acordado com a inefável troika.
Desta feita são os subsídios de Natal a sofrerem cortes em virtude de passar a recair sobre eles um imposto "excepcional". Seguimos o caminho já trilhado por outros países com os resultados conhecidos.
Por outro lado, o problema repete-se: afinal o défice não era aquele esperado e em consequência são necessárias medidas adicionais. Em Portugal, à semelhança de outros países europeus, não se contemplou a hipótese de uma negociação mais profícua quer no sentido de combater as dificuldades, quer no sentido de preservar o bem-estar social dos cidadãos.
Os resultados da austeridade já são conhecidos: recessão, desemprego, desaparecimento do Estado Social. Ou seja, cumpre-se o desígnio de alguns arautos do sistema financeiro que ainda hoje, paradoxalmente, impera.
Pelo caminho assistimos a um golpe de génio. Os responsáveis pela crise cujo expoente máximo foi em 2008 deixaram de o ser para passarem a desempenhar as funções de carrascos do Estados soberanos, tudo com a complacência de uma classe político pouco comprometida com a democracia e totalmente comprometida com o poder económico.
Afinal. esqueceu-se a origem, os responsáveis, os criminosos da crise. Hoje são os Estados os criminosos, Estados que contam com a irresponsabilidade de quem os governou. Estados esses que caíram na armadilha do dinheiro fácil, Estados que disfarçaram as suas imperfeições com dinheiro emprestado; Estados que apostaram em negócios ruinosos, deixando as populações depauperadas.
Hoje os Estados "devedores" são Párias à mercê do negócio de casino, ou dito de outra forma, os Estados estão à mercê dos mercados financeiros. Os mesmos Estados governados por quem deixa os responsáveis da crise à margem do pagamento da factura, onerando quem nenhuma responsabilidade tem na matéria: as classes médias e baixas cada vez mais empobrecidas.
O acesso ao crédito fácil permitiu escamotear o facto de se dar mais primazia ao capital e menos ao trabalho; a comunicação social enche as casas com a ideia de inevitabilidade das medidas tomadas e do caminho escolhido; o consumismo desenfreado coarcta as mentes mais incautas. Não é possível outro caminho, dizem-nos. Não é possível negociar com os credores, nem tão pouco encontrar uma solução concertada com países em dificuldades como a Grécia e a Irlanda, a Espanha, a Itália ou até a Bélgica. É cada um por si, cada um a aplicar a receita do desastre, cada um a deixar-se humilhar e a humilhar os seus cidadãos, retirando-lhes a dignidade arduamente conquistada.
Talvez o estado de adormecimento colectivo, com honrosas excepções, chegue ao fim mais cedo do que os arautos deste sistema pensam.

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