Avançar para o conteúdo principal

Ruído

Não serei seguramente a única a ansiar pela chegada do dia 5 de Junho, não por alguma espécie de entusiasmo em torno das eleições que se avizinham, mas antes por ser esse o dia em que o ruído dos vários partidos cessa, embora o dia 4 de reflexão já nos permita deixar de ouvir o ruído.
Com efeito, em nenhum momento os partidos políticos demonstraram ter ideias. E quanto maior o partido menor a capacidade de discutir alguma coisa remotamente parecida com uma ideia.
Paralelamente, todos agem como se tivessem margem para governar. O programa da troika é, infelizmente, o verdadeiro programa político, mas todos se comportam como se assim não fosse. De igual forma, os problemas de uma Europa que parece caminhar para o seu último estertor não faz parte da campanha dos principais partidos. Tudo o resto é ruído e é com esse ruído que é feita a campanha eleitoral.
Até dia 4 de Junho, os cidadãos vão ouvir repetidamente que estas são as eleições mais importantes da democracia portuguesa e que é preciso responsabilidade, vão ouvir elogios à sua sensatez. Estas são formas de se dizer às pessoas que a importância destas eleições exigem responsabilidade e merecem bom senso; por outras palavras votem nos mesmos.
E é isso que se vai passar. As ilusões que contrastam com as desilusões redundam invariavelmente no mesmo - na escolha de partidos comprometidos e responsáveis pela situação irreconhecível do país; partidos sem soluções; partidos conspurcados por lideranças tíbias e interesseiras.
Contradiz-se enfatizando o facto de não haver escolhas. A realidade é que nenhum destes partidos que se propõe governar mudará enquanto continuar a contar com o apoio dos cidadãos, um apoio que sairá reforçado no dia 5. Depois vêm as lamurias, o descontentamento, os queixumes, como de resto tem sido hábito nas últimas três décadas. Ou seja, mais ruído sem consequências.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...