Avançar para o conteúdo principal

A catástrofe

Mário Soares pediu a intervenção de Cavaco Silva para evitar uma crise política que segundo as palavras do ex-Presidente da República seria catastrófica. Não sei se uma crise política nesta altura será catastrófica, mas parece consensual que terá consequências imprevisíveis.
Se olharmos para a questão apenas do ponto de vista emocional, a possibilidade do Governo cair é apelativa; mas se olharmos para a questão do ponto de vista racional, rapidamente chegamos à conclusão de que a queda do Governo e a convocação de eleições legislativa apenas tem um efeito visível que é o de pôr tanta gente a salivar pela possibilidade de chegar ao poder. Quanto às restantes consequências são uma incógnita e potencialmente nefastas.
Todavia, a forma como o Governo geriu o anúncio e negociação das novas medidas de austeridade é criticável, mas servirá também como forma de nova vitimização do primeiro-ministro que mostra-se disposto a negociar contra o chumbo anunciado dos restantes partidos. O primeiro-ministro quer surgir aos olhos dos portugueses como alguém que tudo fez para resolver os problemas do país sem ajuda externa (?) mas que não conseguiu porque os partidos da oposição, designadamente o maior, não deixou. Aquilo que parecia um acto amador, acaba por revelar-se uma jogada estratégica que poderá produzir efeitos positivos para o primeiro-ministro.
O país é uma catástrofe, os actuais intervenientes políticos são uma catástrofe, as medidas de extrema austeridade são uma catástrofe para quem ainda escolhe este pedaço de terra para viver. A queda do Governo será mais uma catástrofe? Do meu ponto de vista, seria preferível que o Governo não caísse já, mas também reconheço que é apenas uma questão de tempo até cair e que o paroxismo provocado pelo actual Executivo tem-se tornado insuportável.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

O anacronismo do PCP

Domingos Lopes, destacado militante comunista, decidiu abandonar o partido e explicar o porquê desse abandono. As explicações deste militante vão na mesma linha de outros que se afastaram voluntariamente ou que foram convidados a sair e centram-se na aversão do partido ao diálogo, a dificuldade visível em lidar com a pluralidade de opinião, e na ortodoxia cega que este partido demonstra ter em relação ao que se passa no mundo. É por demais evidente que a saída do militante em questão não terá sido fruto do acaso, a pouco menos de duas semanas de um importante período eleitoral. As razões que estão subjacentes à saída de Domingos Lopes poderão não ser totalmente conhecidas, mas aquilo que é enunciado pelo ex-militante do PCP em matéria de visão do mundo e democracia interna do partido já é sobejamente conhecido. Aliás, as opiniões de dirigentes do PCP sobre regimes totalitários como o norte-coreano já não provocam espanto em ninguém. Dentro do partido há quem se reveja nototalitarismo ...