Avançar para o conteúdo principal

Ataques às democracias

Os recentes julgamentos de agências de rating de duvidosa competência sobre as contas de vários países Europeus é um verdadeiro ataque à democracia. Os pareceres destas entidades externas condicionam sobremaneira a soberania dos países. O ataque visa a fragilização da zona euro e da moeda única através de ataques concertados às economias consideradas mais frágeis da eurolândia. Grécia, Portugal e Espanha têm sido os países mais visados.

Importa referir que os países têm perdido paulatinamente instrumentos de intervenção económica - acontece num contexto de economias abertas e no seio da União Europeia. Essa realidade tem posto em causa a soberania dos países na medida em que já não é o povo a tomar as decisões através de representantes eleitos democraticamente, mas são os mercados a tomarem essas mesmas decisões de acordo com os seus interesses.

Também é evidente que Portugal perdeu soberania consequência da sua condição de Estado-membro da UE e de partilhar uma moeda única. No entanto, essa perda de soberania, designadamente através da aplicação de políticas económico-monetárias da zona euro, seria um preço a pagar pela adopção de uma moeda forte que visava a melhoria da economia europeia e dos seus cidadãos. Infelizmente, a zona euro não estava preparada para ataques como aqueles que têm sido perpetrados nos últimos meses e não haverá outra solução que não passe pela revisão das políticas económicas da zona euro. Além disso, vários países europeus, com a Alemanha à cabeça, mostram-se pouco interessados subscrever a solidariedade que faz parte integrante da fundação desta aventura que agora tem a designação de União Europeia. Mais uma vez se verifica que a Europa é coxa - dedicou-se à união económica e monetária, descurando a união política.

No cômputo geral, a perda de instrumentos dos Estados soberanos em prol de um objectivo comum como a União Europeia faz todo o sentido, isto porque apesar da união política ser ainda uma miragem, a política em si não está arredada das decisões tomadas. Infelizmente é precisamente isso que acontece com a globalização feroz que continua o seu recrudescimento apesar da grave crise dos últimos anos. Ao serem os mercados, designadamente agências de rating ou multinacionais a tomarem ou influenciarem decisões que outrora faziam parte da competência dos Estados é um grave atentado à soberania dos povos e, por inerência, um grave atentado às democracias.

O que se tem passado nos últimos meses é um exemplo dessa ingerência atroz. Não se pode seriamente pensar que estes atentados às democracias vão continuar sem resposta. O enfraquecimento da política em favor dos mercados e a economia vista como um fim em si mesmo é um retrocesso para os cidadãos; retrocesso esse que degenera na deterioração do bem-estar social e que culminará com a destruição da coesão social. Por cá, como é hábito, esta discussão não tem lugar. E embora agora seja tempo para agir, vivemos há décadas a assistir serenamente a estas mudanças sem nunca ter uma palavra a dizer sobre as mesmas.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...