quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Consequências do caso Face Oculta

O Processo Face Oculta corre o risco de ser mais um processo sem consequências judicias e políticas, pelo simples facto de ter tido lugar em Portugal e por envolver políticos ou pessoas ligadas à política. O risco de não haver consequências é bem real. Todavia, é preciso sublinhar que o dito caso que envolve empresários, personalidades ligadas ao PS e funcionários públicos, afecta a imagem do primeiro-ministro, que aparece em escutas com o amigo Armando Vara a falar de outros "amigos"; mas afecta sobretudo o Partido Socialista que vê alguns das suas personalidades envolvidas no caso.

Paralelamente, importa referir que o caso Face Oculta mostra um Governo responsável pela escolha de responsáveis por empresas públicas e, por conseguinte, responsável pela escolha de muitos dos nomes envolvidos; mas o Governo é sobretudo responsável pela permissividade com que gere essas mesmas empresas que são, em muitos casos, sorvedouros de dinheiros públicos e excelentes lugares para colocar os amigos mais próximos.

Consequentemente, espera-se - talvez com alguma ingenuidade - que este caso tenha consequências a dois níveis: consequências no âmbito da Justiça, designadamente com a punição dos culpados, mas também consequências políticas, em particular para o Governo de José Sócrates e para o seu partido. E se ninguém tem culpa de ter os amigos que tem, não é menos verdade que não se pode confundir inépcia na gestão dos recursos públicos e falta de vontade política para combater a praga da corrupção com esse amiguismo de gosto duvidável. Além disso, ainda é cedo para se saber as exactas consequências deste caso. Com efeito, é provável que as escutas ainda venham a tramar muito boa gente.

Mas nada disto servirá de muito quando são os próprios cidadãos a darem o mau exemplo e a contribuírem para a degradação da qualidade democrática, designadamente ao elegerem pessoas menos recomendáveis para lugares políticos - é um pouco como dar o ouro ao bandido. Enquanto não existir maturidade para se salvaguardar os recursos públicos, por um lado, e a própria qualidade democrática por outro, o país limita-se a ir paulatinamente - ou talvez não - ao fundo.

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