quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Solução à esquerda?

A possibilidade de um entendimento entre o PS e os partidos mais à esquerda do espectro político nacional é defendido por um movimento de cidadãos "Compromisso à esquerda". Ora, a exequibilidade desse entendimento é manifestamente reduzida - tanto o Bloco de Esquerda como a CDU são forças de contestação, com pouca ou nenhuma vocação governativa, e, exceptuando alguns aspectos pontuais, com diferenças muitosignificativas relativamente às políticas defendidas pelo Governo.

As dificuldades de um entendimento crescem exponencialmente em matérias económicas. Do lado do partido do Governo defende-se uma política económica comcaracterísticas liberais, com possíveis privatizações e com um papel do Estado de regulação e supervisão (embora estas falhem com recorrência); os partidos mais à esquerda do PS defendem a aplicação de um modelo em que o cerne é a estatização da economia. Neste modelo, o Estado ocupa o papel central da economia,secundarizando o sector privado, o que nos afastaria de forma inexorável daquilo que se passa nas economias europeias e teria custos incalculáveis. Neste contexto, asnacionalizações em sectores considerados estratégicos seriam um instrumento central das políticas económicas.

Por aqui se vê as radicais diferenças entre as políticas económicas defendidas por estes três partidos. De duas, uma: ou o PS abandonaria o rumo que tem sido seguido em matéria de políticas económicas, ou a CDU e o BE deixariam cair uma das suas principais bandeiras ideológicas - os dois partidos mais à esquerda do PS defendem um Estado ainda mais omnipresente e omnipotente do que aquele que já temos e a sua sustentabilidade dificilmente se coadunaria com qualquer alívio fiscal.

Este é o principal óbice a um entendimento entre as forças de esquerda, a par de diferenças de fundo em matérias como o código do trabalho, fiscalidade, saúde, justiça. Os pontos em comum estão no modelo de sociedade que defendem, dando particular importância às liberdades individuais como valor supremo e defendendo temas controversos como os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, divórcio, novas famílias, emigração. Mas este terreno comum, que se torna evidente entre PS e BE, é escasso para se construir uma plataforma de entendimento estável.

Acresce a isto a personalidade de cada um dos líderes dos referidos partidos, designadamente entre José Sócrates e Francisco Louça. A animosidade entre os dois nunca foi especialmente escondida. São muitos anos de crispações para ultrapassar.

De igual modo, e para finalizar, importa dizer que nem BE nem CDU estarão interessados em desiludir o seu eleitorado que votou, em particular no caso do BE, nestes partidos para não votar no PS. Deixar cair as suas bandeiras eleitorais e estabelecer um entendimento com aqueles que foram o primordial alvo de críticas, em partidos de contestação, pode ameaçar a própria consolidação dos mesmos.

Embora a instabilidade governativa seja uma realidade, o entendimento entre estes três partidos não é seguramente a solução para o país.

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