Avançar para o conteúdo principal

Receita com sabor amargo

Segundo uma sondagem publicada pelo Diário de Notícias, o PS continua a liderar confortavelmente, mais ainda assim sem maioria absoluta, as intenções de voto dos portugueses que parecem apostados em insistir na mesma receita de sabor amargo. O grande argumento a favor destes resultados prende-se com ausência de alternativas, nomeadamente à direita do PS. O argumento está gasto e a prová-lo está a subida, ainda que tímida, do PSD. Mas a verdade é que existe uma vasta maioria de cidadãos eleitores que, face a uma situação de escolha, pese-embora essa escolha possa ser condicionada, volta a insistir numa solução que provou ser tudo menos solução. Ora, se a escolha é condicionada, parece lógico escolher-se o que já se sabe de antemão que é negativo.

Quando se fala na prestação negativa do actual Governo está-se a referir ao desempenho do Executivo e não a questões que, embora sejam colaterais à governação, deixam muito a desejar no que diz respeito ao carácter e à idoneidade de quem desempenha funções públicas. E é precisamente sobre a actuação do Governo que deveria recair um voto de protesto em sentido diametralmente oposto àquele que muitos cidadãos parecem indicar. A questão contrária também se pode colocar: votar noutro partido com uma liderança fraca pode ser um risco pesado e sabemos bem de que partidos estamos a falar porque, apesar do Bloco de Esquerda ter vindo a crescer de forma surpreendente, a verdade é que os portugueses alternam entre aquilo que se convencionou chamar os partidos do bloco central: PS e PSD. A sondagem do Diário de Notícias vem reforçar essa tendência de voto, tendência essa que se intensifica com o aproximar das eleições.

A receita com sabor amargo estará prestes a ser reeditada? A julgarmos pelas sondagens tudo indica que sim. A dúvida parece residir na possibilidade ou não de uma maioria absoluta, neste particular tudo indica que não. Fala-se insistência na formação de um bloco central, entre PS e PSD, isto apesar de ambos os partidos rejeitarem essa hipótese liminarmente. É bem possível que essa hipótese seja mesmo plausível num primeiro momento. A dificuldade reside na incapacidade de alguns dos intervenientes em manter entendimentos essenciais em qualquer coligação.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...