terça-feira, 5 de maio de 2009

Desemprego e crise social

Os ministros das Finanças da zona Euro sublinharam os perigos do desemprego, designadamente no que diz respeito às suas consequências que poderão resultar numa crise social na Europa. O que é grave é que, até 2010, a generalidade das previsões apontam para uma subida do desemprego. Ora, à instabilidade social que as elevadas taxas de desemprego cria, junta-se um sentimento genérico que as medidas tomadas quer pelos vários países, quer a nível europeu estão longe de coarctar os efeitos da crise, que essas lideranças políticas não demonstram ter respostas para os problemas dos cidadãos, mas que essas respostas, quando se trata de injectar liquidez ou nacionalizar a banca, são atempadas.

Importa também referir o claro aproveitamento de algumas empresas que usam e abusam da crise. Nem tão-pouco são raros os casos de empresas que têm objectivos que não se coadunam com o número de funcionários que mantém ou almejam deslocar-se para mercados mais apetecíveis. Neste particular a Europa ainda não apresentou medidas que evitem o aproveitamento da crise por parte de quem procura o lucro a qualquer custo.

A crise social que decorrerá do aumento do desemprego acarreta novas dificuldades para as próprias democracias. O egoísmo daqueles que têm emprego, mas que vêem no vizinho do lado um potencial usurpador do seu emprego, em particular se o vizinho do lado for estrangeiro; a total ausência de esperança de quem permanece desempregado durante meses ou anos mantém os cidadãos num estado de inactividade permanente ou cria cidadãos desconfiados e revoltados potenciado comportamentos socialmente reprováveis ou, em casos mais graves, dão origem a comportamentos que esbarram no próprio Estado de Direito passará a ser mais recorrente. Nada disto é particularmente novo, mas com a crise ganha outras proporções. Nestas circunstâncias, ninguém se sentirá motivado na luta permanente pela consolidação das democracias, quando estas foram o palco de tantas promessas que são agora esvaziadas de sentido.

As democracias e os mercados tiveram uma relação estável no pós-guerra guerra, mas uma foi-se sobrepondo à outra, enfraquecendo-a. Com a perda desse equilíbrio abriram-se portas a todo o tipo de excessos que hoje pretende-se que sejam regulados. Infelizmente, as medidas tomadas pela UE no sentido de combater a crise são reduzidas porque são tímidas e hesitam num rompimento com a selvajaria em que se transformou o modelo económico vigente. É preciso mais ambição - agora das democracias e das lideranças políticas. E é, fundamentalmente, preciso mais coragem que, infelizmente, só está ao alcance de muito poucos. A alternativa a isto é um aumento da turbulência social e o inevitável surgimento de uma profunda crise social.

Notícia in Público online: http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1378573&idCanal=57

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