terça-feira, 7 de abril de 2009

Antiamericanismo levado ao extremo

O lançamento, ao que tudo indica de um míssil balístico, da Coreia do Norte constitui antes de mais um incumprimento de resoluções das Nações Unidas. Além disso, trata-se de uma clara atitude provocatória cujo único contributo é o de aumentar a instabilidade da região. Infelizmente, o ódio que é destilado pelos Estados Unidos não permite ver, como é hábito, o essencial. Os arautos do antiamericanismo mais primário perdem-se em questões colaterais e minudências. Assim, e apesar da atitude provocatória da Coreia do Norte e do seu desrespeito por resoluções da ONU, há quem prefira criticar a preponderância dos EUA e as incongruências da sua política externa. Pelo caminho todos esquecem a Coreia do Norte e perdoa-se a complacência das autoridades chinesas que vêm agora defender o direito norte-coreano ao uso pacífico do espaço, como se essa fosse a questão central.

Na verdade, nem a postura e as políticas de Obama - diametralmente opostas à do seu antecessor - são capazes de apaziguar os mais antiamericanistas. Agora, como no passado, defendem-se posições próximas do extremismo e cai-se invariavelmente no erro de defender, lá fora, aquilo que não ousaríamos defender cá dentro com aplicação directa nas nossas vidas. Assim, não é de estranhar, quando as questões secundárias já não satisfazem a voracidade dos antiamericanistas, assistir-se a uma espécie de compreensão de um regime como o norte-coreano. Não interessa perceber que a natureza do regime é totalitária; não interessa perceber as condições deploráveis em que vivem muitos norte-coreanos; nem tão-pouco interessa perceber que este lançamento é um grave motivo de preocupação que pode por em causa a estabilidade (há muito relativa da região).

É claro que muitos dos que defendem posições próximas dos regimes totalitários, sempre contra os EUA, fazem-no porque vivem ressabiados com a História e com a presença da guerra-fria. Seria igualmente interessante ver estas mesmas pessoas a tecerem críticas à política externa chinesa, seja no caso concreto da Coreia do Norte, seja no caso, por exemplo do Darfur; seria profícuo ver tanto entusiasmo na condenação da força de bloqueio que a China constitui sempre que se trata da Coreia do Norte - o passado ideologicamente similar não pode justificar tudo.

Quantos destes simpatizantes de uma determinada esquerda, que se tem sentido galvanizada pela inépcia do Bush e pela actual crise, se insurgem contra os sucessivos vetos quer da China, quer da Rússia em questões que implicam a Coreia do Norte? Quantos idolatram personagens sinistras como Hugo Chávez que não se coíbe de receber de braços abertos Omar Al-Bashir, o grande responsável pelo genocídio do Sudão? Quantos não afirmam perceber a revolta dos defensores do radicalismo islâmico, refugiando-se no silêncio quando se trata de criticar as atrocidades que são cometidas em mulheres, por exemplo, e por estes lados defendem quotas para uma maior participação das mulheres na política?

Que o mundo não é a preto e branco já todos percebemos. E ninguém, com alguma honestidade intelectual, pode refutar algumas das incongruências e erros da política externa americana. Mas de qualquer forma, essas incongruências não podem sustentar um ódio avassalador sobre tudo o que esteja remotamente ligado aos Estados Unidos, perdendo-se pelo caminho a sensatez, e passando a defender o indefensável. Muitos escondem-se sob a capa dos valores democráticos quando são estes os primeiros a esquecer esses valores quando se trata de defender posições de Estados totalitários, como é agora o caso da Coreia do Norte. De facto, é muito fácil defender estes regimes à distância.

Notícia in Público:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1373052&idCanal=11

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