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Ausência de consensos

A dificuldade em se chegar a um consenso sobre o nome do sucessor do ainda Provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues, é sintomático da deterioração da qualidade das lideranças partidárias que por teimosia ou por interesse mostram a sua natureza unilateral e avessa a entendimentos. O ainda Provedor de Justiça terminou o seu mandato há oito meses e os dois maiores partidos foram incapazes de alcançar um entendimento.

Ora, se tanto o PS como o PSD mostram-se incapazes de dialogar sobre este assunto, de que forma é que os maiores partidos portugueses poderão chegar a entendimentos sobre assuntos determinantes para o desenvolvimento do país? A avaliar pelo passado recente de ambos os partidos e pela intransigência sobre a escolha do Provedor de Justiça, nós vamos continuar a viver momentos de impasse.

Sublinhe-se que o partido do Governo tem manifestado sérias dificuldades em chegar a acordo com os restantes partidos. Pouco adeptos do diálogo, mesmo do diálogo dentro do partido, as lideranças do PS pouco ou nada têm feito para dar nova dinâmica ao sistema democrático, designadamente através do diálogo e da troca de ideias. O PSD, por sua vez, tem andado à deriva mostrando acentuadas dificuldades em se encontrar. Assim, o que ambos os partidos preferem ignorar é que a generalidade dos cidadãos não se interessa por saber quem é que tem razão - se é que alguém tem - e que a generalidade dos cidadãos vê é um conjunto de políticos a adoptarem um comportamento a raiar a puerilidade.

De resto, este impasse sobre o Provedor de Justiça, que atinge o seu zénite em plena crise internacional, mostra um sistema partidário conspurcado pelo hermetismo, pelos interesses e por jogos político-partidários que a maior parte dos cidadãos não entende. Numa altura que se exige lideranças fortes um pouco por todo o mundo, em Portugal os dois maiores partidos dão sinais de fortes divergências e mostraram a sua incapacidade para o diálogo. Perde-se tempo precioso, não se resolve os problemas e alimentam-se animosidades desnecessárias. Nestas circunstâncias o resultado é invariavelmente o mesmo: a descrença dos cidadãos cada vez maior na classe política e a deterioração da qualidade da nossa democracia. Pelo meio ficam os problemas por resolver.

Notícia in Público online: http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1370420&idCanal=12

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