Avançar para o conteúdo principal

Promoções e desconsiderações

A promoção de Armando Vara, concedida pela Caixa Geral de Depósitos, já depois do actual vice-presidente do BCP ter cessado funções, é sintomático da degradação do sistema político português. A notícia do Público mostra claramente a desconsideração pelo país por parte de quem já desempenhou funções públicas. Numa altura em que se assiste ao mais claro desprezo pela classe média, em que se verificam almofadas para as instituições financeiras se sentirem mais confortáveis, são estas situações que não são compagináveis com a consolidação da democracia.

Com efeito, a promiscuidade entre políticos e mundo dos negócios é cada vez mais evidente, tanto mais que há nem há pudor em disfarçar essa promiscuidade. De igual forma, a existência de sistemas criados apenas para conceder benesses às direcções de instituições financeiras já era discutido até antes da crise. Mas é a crise que veio e vem revelar a ganância, a obtusidade e a condição privilegiada de quem ocupava cargos de direcção comparativamente com a generalidade dos cidadãos.

A situação descrita pelo jornal Público (
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1355777&idCanal=57) é mais uma peça do puzzle. Afinal, é possível conseguirmos uma promoção, apesar de já termos deixado de trabalhar na empresa que agora nos promove. E o mais grave é que ainda há quem alegue que esta é uma prática comum no sistema financeiro, como se isso legitimasse estas práticas.

Em síntese, por muitas reformas que possam ser feitas, o país dificilmente deixará de ser pequeno e pobre. A verdadeira reforma teria que passar por uma mentalidade que se instalou definitivamente. A classe política esquece, contudo, que não apenas a prejudicar o pais; enquanto insistir em defender interesses próprios e alheios ao interesse comum, está essencialmente a prejudicar-se a ela própria. A História assim nos tem ensinado.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...