Avançar para o conteúdo principal

Crise e democracia

Portugal atravessa um período em que se cruzam crises de natureza diversa, mas com ligações profundas entre si: o país já atravessava uma crise económica há quase uma década a que se junta agora uma crise internacional de contornos inauditos; mas o país atravessa também outro tipo de crises, designadamente uma crise moral e de confiança. Os casos do BPN e do BPP vêm por a nu essas mesmas crises que, de facto, contribuem para a fragilização da própria democracia.
Com efeito, a consolidação democrática é um processo contínuo e que se torna mais sólido quando os cidadãos confiam nas instituições democráticas. Em Portugal essa confiança tem vindo a sofrer uma preocupante deterioração. Senão vejamos: há uma dificuldade acentuada em confiar numa parte da classe política – a Assembleia da República não é o órgão de prestígio que deveria ser, e a ausência de deputados numa importante votação (em véspera de fim-de-semana prolongado) é sintomática disso mesmo.
De igual forma, a promiscuidade entre políticos e grandes negócios, seja no sector da construção, seja no da alta finança, é outro elemento que gera desconfiança. Além disso, este caso do BPN e do BPP em que é evidente a participação directa ou não de figuras dos dois principais partidos em situações que, amiúde, raiam a ilicitude; ao mesmo tempo que assistimos ao esforço hercúleo do Governo de salvar essas instituições, sob pretexto do famigerado risco sistémico ou, mais recentemente, para salvar os depósitos, geram um descontentamento e consolidam a desconfiança que os cidadãos têm na classe política. Por outro lado, a ideia que se generalizou que a punição raras vezes é uma realidade para os mais poderosos que, geralmente, estão intimamente ligados ao mundo da política, a par da ideia de uma justiça inoperante, são mais elementos que sustentam a tese segundo a qual as crises que atravessamos são nefastas para a própria democracia.
Em síntese existe um mal-estar latente que constitui um perigo para a própria democracia. E este é provavelmente o maior desafio para a democracia portuguesa. A equação é, pois, simples: à crise económica, soma-se uma crise de confiança que se agudiza depois de tanta promiscuidade e imoralidade.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...