Avançar para o conteúdo principal

Processo Casa Pia

Falar deste processo, como de outros dos quais não se conhece ainda uma decisão do Tribunal, levanta vários problemas, sobretudo relacionados com a presunção de inocência dos arguidos. Como é sobejamento conhecido, este processo é o grande teste à Justiça portuguesa. Justiça essa que não há forma de conhecer melhores dias. Depois de tantos falhanços, a convicção generalizada é de que o processo Casa Pia será mais um falhanço a engrossar uma lista que já vai longa.
Por outro lado, a questão incontornável das vítimas - pode-se ter dúvidas em relação a muita coisa, mas há uma admissão que aqueles jovens foram vítimas de abusos sexuais, o que justificou a atribuição de indeminizações às vítimas. Se a Justiça falhar, isso constitui nova tormenta para quem teve fé na Justiça e viu todas as expectativas serem goradas. Não se exclui a possibilidade de novos traumas emergirem de um falhanço da Justiça.
E finalmente, há um outro ângulo que não pode ser analisado de forma dispicienda e que se prende com a própria imagem da Casa Pia e de instituições cuja principal função é salvaguardar o bem-estar dos que se encontram em situação de maior fragilidade. A imagem da instituição em causa foi severamente afectada pelo escândalo. Até hoje há dificuldades em perceber como é que foi possível que todas as situações atrozes que hoje são conhecidas tivessem sido envoltas num manto de silêncio, durante décadas. Hoje, a Casa Pia tem um longo caminho a percorrer no sentido de expurgar o fantasma da pedofilia. Certamente que se trata de um processo díficil, mas sem dúvida possível.
Em suma, o processo Casa Pia, ou melhor, o desfecho do mesmo, terá consequências a vários níveis. O país aguarda já um pouco impaciente uma conclusão. A descrença que muitos cidadãos têm na Justiça poderá mesmo sair reforçada com um dos casos que mais abalou o país, não deixando de fora alguma classe política que se refugiou, amiúde, nas famigeradas teorias da cabala.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

A outra doença

Quando todos se empenham no combate ao perigoso vírus, outras doenças subsistem, das quais se destacam a imbecilidade de líderes como Donald Trump e Jair Bolsonaro e uma União Europeia que pouco se esforça para mostrar algum resquício de espírito de união. Agora aparece o Presidente do Eurogrupo e também ministro das Finanças português, pouco entusiasmado, a apresentar um pacote de 500 mil milhões de euros de dívida, perdão, ajuda. Desses 500 mil milhões sobram algumas migalhas para Portugal. De resto, a Europa continua dividida entre países como a Alemanha e os Países Baixos e os países do sul. O egoísmo gritante de uns matará o que resta desta anedota, como quase matou em 2008.. Entretanto, e enquanto os líderes dessa Europa aplicam as suas energias em bloquear soluções, o fascismo vai fazendo o seu caminho, livremente, na Hungria e na Polónia, Estados-membros da UE. Havermos de superar o vírus que paralisou o mundo, mas dificilmente resistiremos à doença do egoísmo nesta espéci...