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Vai ficar tudo na mesma?

A crise financeira está confortavelmente a instalar-se na vida de todos nós, sem que possamos fazer muito para inverter a situação. À sensação de impotência junta-se uma inexorável dificuldade em perceber como é que possível que tudo isto esteja a acontecer, ainda para mais a uma velocidade estonteante, sem que ninguém saiba onde é que isto vai parar.
Uma pergunta que se impõe mais é a seguinte: será que vai ficar tudo na mesma? Ou será que as correcções que se impõe hoje, tal como se impunham no passado (pelo menos desde os anos 70 quando se começou a abandonar o sistema Bretton-woods)) vão, de facto, ser uma realidade.
Numa tentativa vã de responder a essa questão, a par da necessidade de compreender a crise, há quem regresse a Marx; apesar da importância de Marx, que não deve ser, de forma alguma, desprezada, eu prefiro recuar apenas algumas décadas, prefiro o regresso a James Tobin, prémio Nobel na década de 70, e mais conhecido por ser o responsável pela taxa Tobin. James Tobin reforçou a tese que postula que a desregulação do fluxo de capitais prejudicava sobremaneira a economia real.
A famosa taxa Tobin pretendia introduzir maior controlo sobre um mundo das finanças em rédea livre. A taxa de um por cento incidiria sobre as transacções de divisas, o que permitiria reforçar o poder dos bancos centrais, contribuir para os cada vez mais paupérrimos orçamentos dos Estados, e serviria, naturalmente para pôr algum freio na crescente especulação que está na origem da actual crise. O grande objectivo da taxa Tobin visava afectar a especulação.
A rejeição da taxa Tobin contribui também para o actual estado (esfrangalhado) do sector financeiro que deposita consequências demasiado onerosas (já para não falar do carácter injusto) para a economia real.
Infelizmente, já outras crises tinham mostrado os perigos da desregulação no sector financeiro. Não foi propriamente por falta de avisos que tudo se precipitou a um ritmo alucinante. Alguns líderes mundiais defenderam um aumento das medidas que visassem proteger o mundo financeiro dos seus próprios perigos. Mas não foram apenas esses líderes mundiais a perceber a bomba relógio que era o mundo financeiro. George Soros – um homem que conhece por dentro o sistema financeiro –, já nos anos 90 dava conferências a chamar a atenção para os perigos do sistema financeiro.
Hoje, regressa o fundamentalismo de posições: ou considerando que o Estado é a solução para tudo; ou insistindo que o Estado não é a solução, esvaziando por completo a sua importância. Perde-se a sensatez de perceber que quer Estado a mais, quer Estado a menos é contraproducente. Durante mais de trinta anos, foi-se construindo um sistema que também na sua essência é fundamentalista, pugnando por um sistema que punha qualquer intervenção que não fosse a dos próprios mercados de lado, esquecendo que, de um modo geral, o cariz anarquista do sistema financeiro poderia ser o principio do seu fim.
Regressando à pergunta em epígrafe, é difícil encontrar já uma resposta segura. É provável que se encontrem formas de controlar melhor a miríade de instrumentos financeiros que pululam no mundo financeiro, mas tudo será em vão se não se contrariar a tendência que o sector financeiro tem para a anarquia. Para isso, vai ser fundamental que a política regresse ao seu lugar de primeira importância. Durante muito tempo o sector financeiro exerceu uma pressão intolerável sobre as lideranças políticas, o que resultou nesta crise por muitos anunciada.
Paralelamente, não se tem discutido a questão dos paraísos fiscais – uma verdadeira aberração que gera as maiores iniquidades e que permite que a luta contra a fuga de capitais seja uma verdadeira arma com a qual se chantageia os Estados. Em suma, é fundamental que a mudança seja uma evidência, e o regresso da política é essencial para que essa mudança se concretize. Alguma coisa vai mudar certamente, resta saber se é suficiente para evitar que novas crises como a actual ecludam. Para já, há esta crise para resolver, procurando, desde já, debelar os seus efeitos globais.

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