terça-feira, 29 de julho de 2008

Política externa à portuguesa

As últimas semanas foram marcadas por vários momentos, protagonizados pelo primeiro-ministro, em que a subserviência e a bajulação foram as pedras de toque da estratégia do Governo para conquistar o coração de ditadores. O rol de personalidades pouco recomendáveis é extenso: Hugo Chávez, José Eduardo dos Santos, Kadhafi e Obiang.
Ora, a política externa do Governo não difere muito, em vários aspectos, do nosso comportamento colectivo com os estrangeiros – o que sobressai é uma subserviência bacoca e que nem sequer produz resultados. Dir-se-á que existem diferenças entre a política externa do actual Executivo e a política externa dos anteriores governos. É verdade. No passado continuávamos a insistir numa lógica de subserviência, procurando frequentemente passar despercebidos; a diferença relativamente ao Governo liderado por José Sócrates é que o primeiro-ministro não abandona essa lógica de subserviência, mas adiciona uma boa dose de bajulação, para que em troca possa estreitar relações económicas, um pouco à margem da União Europeia, com os países em questão.
As relações com Chávez não são as quem mais inquietam, embora o Presidente Venezuelano mantenha um comportamento errático e nem sempre seja apologista das melhores práticas democráticas, já para não falar de alegadas relações com grupos extremistas, que funcionam à margem da lei, na América do Sul. Todavia, a proximidade excessiva de Sócrates a líderes como Kadhafi – acusado, entre outros crimes, de terrorismo e José Eduardo dos Santos que, para além de fomentar a corrupção e perpetuar a pobreza do seu povo, ostentando uma vida de luxos inimagináveis que se proliferam pela gente do regime, tem o hábito de enviar recados, através do jornal oficial angolano, ao nosso país. E quando o faz, todos se encolhem e prestam a mais ridícula vassalagem a um regime cleptocrata. Ou, mais recentemente, a amizade do Governo português com Obiang, líder da Guiné Equatorial, que pertence à mesma estirpe de outros ditadores africanos – o contraste da sua riqueza pessoal com a pobreza do seu povo é, no mínimo, chocante.
Mas o que é que existe em comum entre todos estes líderes? O petróleo. Por causa do petróleo, vendemos tudo, até mesmo a nossa dignidade. Não obstante a natureza ditatorial da generalidade destes regimes, e mesmo que se defenda que a ostracização dos mesmos é contraproducente. Nada justifica, porém, a subserviência e a bajulação que caracterizam a forma de nos relacionarmos com os outros. Só nos fica mal e estará longe de vir a produzir os resultados tão ambicionados por um primeiro-ministro cujo pragmatismo simplório não deixa muito espaço à imaginação.

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