Avançar para o conteúdo principal

Regresso à normalidade

Depois de uma semana conturbada e caracterizada pela paralisação dos camionistas, o país parece regressar a uma normalidade que mais não
é do que superficial. De facto, outras classes profissionais se seguirão nos protestos contra o aumento no preço dos combustíveis – os jornais já noticiam movimentações de taxistas e agricultores. A ideia subjacente a esses eventuais protestos prende-se precisamente com as dificuldades de sectores que dependem largamente do preço dos combustíveis, e se o Governo atendeu às revindicações do sector dos transportes pesados de mercadorias, é natural que outros sectores se virem para o Estado a pedir ajuda. Era expectável que essa situação acontecesse.
Por outro lado, a normalidade e a acalmia que regressam depois de dias atribulados, poderá ser manchada pelos protestos de outros cidadãos que olham com cada vez maior interesse para um esquerda cheia de reclamações e vazia de soluções. Com efeito, o aumento das taxas de juro, o aumento da taxa de inflação, a escalada no preço dos combustíveis, e ainda o encarecimento de produtos alimentares, reduzem dramaticamente a margem de muitas famílias. A isto acrescente-se a reduzida criação de emprego, o facto do desemprego se ter instalado na vida de cidadãos outrora árduos trabalhadores, em particular desempregados mais velhos, e a precariedade do emprego, e constata-se facilmente que a combinação é perfeita para o aproveitamento político e consequente crescimento dos partidos situados mais à esquerda do espectro político.
Embora seja evidente que esses partidos se encontrem desprovidos de soluções ou caminhos para ultrapassar os efeitos de uma crise que não é responsabilidade do Governo, a verdade é que as sondagens indicam um crescimento acentuado do PCP e do Bloco de Esquerda em matéria de intenções de voto.
Ora, o crescimento inusitado destes partidos nas sondagens indicia que o tal restabelecimento da normalidade é ilusório. Já há algum tempo que o país vive situações de alguma anormalidade mais ou menos evidente – o episódio dos camionistas foi apenas uma parte mais visível dessa anormalidade. Os episódios que tornam visível essa anormalidade serão certamente mais visíveis, perante a revelação da incapacidade do Governo em atenuar os efeitos de uma crise que veio para ficar. Resta saber por quanto tempo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...