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Os deslizes do Presidente

O Presidente da República, à semelhança do primeiro-ministro, começou a desempenhar as suas funções debaixo de uma multiplicidade de elogios. No caso do primeiro-ministro, o seu ímpeto reformista foi caracterizado como sendo um bom prenúncio para o futuro; o Presidente da República, Cavaco Silva, recebeu elogios quer pela cooperação estratégica com o Governo, quer pela assertividade patente na sua acção política. É curioso verificar agora que esses elogios esmoreceram, mais no caso do primeiro-ministro, consequência também da natureza do cargo.
Todavia, os últimos meses desta presidência da República têm sido marcados por deslizes do Presidente. A título de exemplo, recorde-se a viagem de Cavaco Silva à Madeira, numa lógica de quase subserviência. E recentemente, o Presidente adoptou uma postura letárgica no que toca à paralisação dos camionistas e o subsequente sequestro do país, e, como corolário dos deslizes, o Presidente cometeu a gaffe do “dia da raça”.
É comum escrever-se e falar-se sobre a actuação do Governo, com o primeiro-ministro à cabeça. Além do mais, é natural que assim seja, até porque quem detém competências executivas está mais vulnerável ao escrutínio público. Mas também é verdade que o Presidente da República não tem tido uma actuação particularmente brilhante.
A gaffe do Presidente, ao referir-se ao dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, como sendo o “dia da raça”, poderia ter sido apenas isso – uma gaffe, se o Presidente tivesse esclarecido a situação, fazendo naturalmente uma declaração nesse sentido. Cavaco Silva ao invés de fazer um esclarecimento, optou por nem sequer se referir mais ao assunto. A sobranceria evidente na recusa em retratar-se, não abona em favor do Presidente.
Paradoxalmente, a popularidade do Presidente parece não repercutir os episódios acima referidos. Isso explica-se, porventura, com o facto de Cavaco Silva ser respeitado no país e porque o cargo que ocupa não ser susceptível de grandes críticas. Mas eu creio que a explicação vai um pouco mais além: os Portugueses estão cansados de uma classe política que parece não ter contribuído em nada para o desenvolvimento do país, muito pelo contrário.
Nestas circunstâncias, o Presidente da República quer pelo seu passado político (apreciado por muitos), quer pela forma como tem desempenhado o cargo actual – com aquela postura de Estado que o caracteriza – agrada e é alvo da complacência dos Portugueses. Aliás, se até o Presidente da República fosse visto de forma negativa pelos Portugueses, não lhes restaria mais nada a que se agarrarem. O Governo e os partidos da oposição não têm caído propriamente na graça dos Portugueses. Resta, pois, o Presidente da República.

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