sábado, 5 de abril de 2008

O desemprego dos licenciados

O ministro do Ensino Superior, Mariano Gago, em declarações à Rádio Renascença, afirmou que “o número de profissionais com cursos superiores que saem todos os anos para o mercado de trabalho não chega e são todos absorvidos”. Ora, uma afirmação desta natureza só se pode enquadrar num contexto mais vasto de propaganda política. É reconhecido por todos que os licenciados, designadamente os jovens, têm acrescidas dificuldades em entrar para o mercado de trabalho, e quando são bem sucedidos nessa tarefa, acabam por trabalhar em condições de manifesta precariedade.
O ministro deve estar ciente dos números que mostram uma realidade que não é consonante com as suas afirmações. Por outro lado, não faz sentido sublinhar-se a necessidade de mais trabalhadores qualificados, quando o mercado mostra-se relutante em integrar os que já existem.
Quando discussões desta natureza eclodem, acaba-se por enfatizar as dificuldades que algumas licenciaturas acarretam em matéria de procura do mercado laboral. São, portanto, as letras, a psicologia, a filosofia, e, mais recentemente a enfermagem, que são apontadas como razão do elevado número de desempregados possuidores de uma licenciatura. Acaba-se mesmo por ir mais longe, e reclamar-se a extinção destas licenciaturas. Este raciocínio é erróneo quando não percepciona as capacidades intelectuais, a rapidez de raciocínio, a disciplina mental que os licenciados – mais do que quem tem menos qualificações – possuem. E que estes jovens qualificados podem, e deveriam ser, uma mais-valia para qualquer empresa. A licenciatura, qualquer que seja, não se esgota no acumular de conhecimento, é um também um treino rigoroso e deve ser encarada como sendo mais abrangente.
A mesquinhez e ausência de visão estratégia de algum tecido empresarial assenta toda a sua actuação no pressuposto das baixas qualificações e da precariedade. Só desta forma se pode explicar o elevado número de jovens licenciados no desemprego. Um licenciado não é apenas um conjunto de instruções para desempenhar uma determinada tarefa, é muito mais do que isso, independentemente da área da sua formação. Seria de uma enorme seriedade que se procurassem as verdadeiras razões que explicam o elevado número de licenciados que não encontra resposta no mundo do trabalho. E quem diz licenciados, poderá ir mais longe e referir trabalhadores ainda mais qualificados.
Infelizmente, o nosso país ainda se encontra preso a uma mediocridade profusa. Mediocridade essa que contamina algum tecido empresarial que esquece a sustentabilidade dos seus projectos, preferindo olhar para o lucro fácil e rápido, resvalando inevitavelmente para a escassez ou inviabilidade dos seus resultados. A precariedade que grassa pelas empresas portuguesas, e pelo Estado, aliada ao desprezo pelas qualificações, são sintomas de um país atrasado e relutante em abandonar esse atraso.
O ministro em questão deveria ser o primeiro a perceber que é inútil pugnar por melhores qualificações, advogando a importância de se formar mais os portugueses – mesmo que sustentando a sua tese em estudos internacionais – se muitos jovens com qualificações vêem a sua formação e suas capacidades serem desprezados pelo país.
Não é igualmente desejável pensar-se que o país caminha no sentido do desenvolvimento assentando o seu alegado progresso num modelo tecnocrático. Mesmo para aqueles, impregnados de uma mentalidade saloia, que procuram invariavelmente as respostas no resto da Europa, não podem deixar de constatar que um país não é só feito de técnicos e especialistas disto e daquilo, que hoje são as elites, enquanto os restantes são os indesejados, tratados amiúde como criminosos por alegadamente não estarem na vanguarda da tecnologia e por serem, aos olhos da sociedade, inúteis. Trata-se de um erro crasso, e de uma visão conspurcada por toda uma mentalidade saloia que mais não faz do que condenar o país à sua incontornável pequenez.

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