segunda-feira, 21 de abril de 2008

A imposição do Acordo Ortográfico

A discussão em torno das alterações previstas pelo Acordo Ortográfico têm gerado os mais diversos argumentos, por vezes mais políticos do que técnicos, o que é de lamentar. Parece que estamos, nós falantes da língua, confrontados com a irreversibilidade da imposição do Acordo Ortográfico, e esse é um facto de difícil aceitação. Este documento, pese embora tenha tido a participação de ilustres académicos e conte com a defesa dos mesmos, é feito à revelia dos falantes da língua.
Esse desprezo pelos falantes da língua é absolutamente inaceitável. Dir-se-á que existem muitas decisões que são feitas à revelia dos cidadãos, e é para isso que os cidadãos delegam competências e funções nos seus representantes políticos. Mas nem tudo pode ser deixado à decisão unilateral de políticos conspurcados por uma acentuada estreiteza de espírito e manipulados por interesses que não são os dos cidadãos, que sustentam as suas decisões numa suposta homogeneização da língua e nos interesses económicos que tudo ditam nos dias de hoje.
A língua, para além de comunicação, é cultura, é património, é identidade. Por conseguinte, não pode sofrer alterações decididas por políticos e apoiadas por alguns especialistas, embora a Associação Nacional de Linguistas, por exemplo, tenha manifestado o seu desacordo.
É curioso verificar que a variante brasileira do Português absorve, com a maior das ligeirezas, os estrangeirismos, designadamente anglicismos, e tenhamos de ser nós, falantes da língua Portuguesa na sua variante europeia, a proceder às maiores alterações. Não se trata de nacionalismo exacerbado, é a mera constatação de um facto indiscutível.
Outro aspecto curioso prende-se com os interesses políticos e económicos que estão subjacentes a este documento. Com efeito, as alterações, com especial enfoque nas consoantes “p” e “c” – na sua supressão – fazem muito pouco sentido e, em alguns casos, consequência da queda de consoantes que são indiciadoras de vogais abertas, alterarão a própria fonética das palavras. Cai por terra, pois, a argumentação apoiada na quase irrelevância do impacto das alterações do Acordo por este tratar apenas a ortografia. O documento que prevê as alterações à língua Portuguesa, para os falantes portugueses, não tem outro enquadramento que não seja político e económico – é um pouco aquela ideia muito portuguesa de sermos pequenos e, por conseguinte, estarmos sujeitos, como uma espécie de fado, aos interesses e necessidades daqueles que são maiores. Talvez assim consigamos vender mais livros no Brasil. Talvez assim, estejamos melhor representados nas organizações internacionais.
Em suma, o acordo em questão não serve os interesses dos Portugueses. Dir-me-ão que o acordo tem um processo de negociação e de ratificação pelo Parlamento Português que remonta aos anos 90 – mais uma vez a sombra da irreversibilidade. Ainda assim, reitero a minha veemente discórdia em relação a este documento. Não se trata de aversão à mudança, até porque nem todas as mudanças são necessariamente positivas. Trata-se sim da condenação de um acordo de bastidores, feito sem a participação dos portugueses – e a discussão a que se assiste hoje deve muito a pessoas como o escritor Vasco Graça Moura –, e fundamentalmente, sem se perceber muito bem de que forma é que alterações com acrescido significado para os falantes portugueses, mas com pouca relevância para os restantes falantes de língua portuguesa, aproxima todos os países. As diferenças entre o Português falado, lido e escrito no Brasil vão continuar a ser substancialmente diferentes do que é falado, escrito e lido em Portugal. Enfraquece, assim, o argumento da aproximação.

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