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Tibete e a passividade da comunidade internacional

O povo do Tibete quer deixar de viver sob o jugo do regime chinês que brutaliza a população, coloniza o território, cerceia as liberdades e parece ter em vista a aniquilação das especificidades culturais e religiosas do Tibete. Esta é a pretensão, legítima, do povo do Tibete, e é com essa libertação em vista que monges e a população desafiam as autoridades chinesas, colocando em risco as suas próprias vidas. Consequentemente, é falacioso evocar-se levianamente que os chineses, nos anos 50, libertaram o povo tibetano da opressão e da pobreza, o que justifica o facto do Tibete ser uma região autónoma – que está longe de o ser – mas sob o poder de Pequim. A imagem dos chineses como libertadores do Tibete é errada; se assim fosse não estaríamos certamente a assistir a estas manifestações, nem tão-pouco teriam ocorrido outras semelhantes, como é o caso frequentemente referido de 1989.
A comunidade internacional refugia-se na sua habitual passividade, recorrendo, invariavelmente, a protestos anódinos e a uma reprovação sem consequências de maior. É indubitável que essa passividade está intrinsecamente relacionada com o facto da China ser o colosso económico que é. Poucos países estarão dispostos a ir mais longe do que o discorrer de palavras de circunstância. A Organização das Nações Unidas não irá mais além. O povo tibetano conta apenas com algumas Organizações Não Governamentais e consigo mesmo.
A China, país que conta com taxas de crescimento económico inauditas e que representa um mercado incomensurável e apetecível, incomoda a comunidade internacional, é certo, não apenas devido à questão do Tibete, mas também em relação aos Direitos Humanos em geral, ao totalitarismo, culminando com o recurso a práticas de concorrência desleal. Esse incomodo, porém, é tolerável por duas razões: em primeiro lugar, ninguém terá muito interesse em querer afrontar um monstro que é, em muitos aspectos, ainda pouco conhecido; por outro lado, a China, país que no espaço de uma década poderá ascender ao estatuto de superpotência, representa uma mar de oportunidades.
Neste contexto, a causa tibetana fica claramente a perder, contando apenas com uma compreensão mais ou menos tímida da comunidade internacional.
Todavia, a proximidade das Olimpíadas – muito bem aproveitada pelo povo tibetano – e o derramamento de sangue têm um efeito desastroso para a construção da imagem de uma China moderna. O Governo chinês não pode deixar de sentir alguma apreensão com manifestações que culminam com mortes a 5 meses dos Jogos Olímpicos. Ora, a visibilidade que a China vai ter nos próximos meses não se coaduna com imagens de prisões arbitrárias, de mortes, de violência, de protesto. Mesmo num momento em que os jornalistas estão proibidos de entrar no Tibete, alguma informação sairá do Tibete. E recorde-se que o Tibete não é a única região a ser problemática para o regime chinês – Xinjiang, região maioritariamente muçulmana, é outro foco de acentuada instabilidade.
Ao regime chinês não resta outra alternativa do que silenciar os ímpetos de secessão do povo tibetano. Por conseguinte, antevê-se uma continuidade nesta linha de repressão. De igual modo, o povo do Tibete não se vai silenciar, aproveitando a visibilidade concedida pela realização dos Jogos Olímpicos. Espera-se, contudo, não se assistir a uma hecatombe nesta região conhecida o Tecto do Mundo. E a comunidade internacional não pode viver eternamente confinada à habitual passividade. Portugal, nesse particular, e à semelhança de outros países, nem sequer recebeu oficialmente o Dalai Lama por não querer exasperar o regime de Pequim.

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