Avançar para o conteúdo principal

Precariedade do emprego fora do discurso oficial

O discurso oficial da classe política, pobre nos dias que correm, não contempla a questão da precariedade laboral. Discute-se a fraca competitividade da economia portuguesa, e, amiúde, explana-se sobre a pouca flexibilidade das leis laborais como sendo causa maior dessa escassa competitividade. Ora, quando se fala em rigidez da legislação laboral, não raras vezes se incorre no discurso fácil da flexibilidade dos despedimentos e pouco mais do que isso. Há, de facto, a tendência para se procurar uma espécie de oásis para as empresas, e esquece-se invariavelmente os problemas que assolam o mercado laboral português, como é o caso da precariedade.
Ninguém pode honestamente negar a existência de um aproveitamento, e de formas de se perpetuar a precariedade; disfarça-se invariavelmente esse aproveitamento com argumentos de necessidade e de inevitabilidade, apoiados na difícil situação financeira do país e das empresas.
O poder político prefere obliterar a verdade recorrendo a expedientes de fuga a esta discussão. Com efeito, não interessa ao poder político abordar um tema que, na sua óptica, é apenas mais uma inevitabilidade. Os principais partidos da oposição, afundados na sua própria tibieza, optam por se cingir apenas aos grandes temas da actualidade.
Importa sublinhar que a precariedade do emprego, como alimento de muitas empresas, e alguns casos, até do próprio Estado, contribui para a mediocridade dos resultados das empresas e do Estado. Concretamente, um aumento da produtividade das empresas não pode ser conseguido às custas da incerteza, do descontentamento, e da instabilidade permanente que caracterizam a vida de muitos trabalhadores. No essencial, a precariedade laboral apenas fragiliza as empresas cuja ausência de visão estratégica – aquelas que apenas procuram o enriquecimento rápido – culmina no mais inexorável fracasso. É nestes contextos que proliferam as várias formas de precariedade – a eterna ligação forçada de muitos trabalhadores aos recibos verdes é o paradigma da precariedade.
É certo que a situação financeira de muitas empresas é difícil, mas pensar-se que a sobrevivência assenta no agravamento da precariedade é um erro crasso com consequências para a sustentabilidade das empresas. Por outro lado, urge que o Estado emagreça substancialmente para libertar recursos no sentido de deixar de onerar as empresas com uma carga fiscal asfixiante, porque quem acaba amiúde por pagar a factura são os trabalhadores.
Em suma, o discurso oficial de toda a classe política deve também centrar-se neste assunto da precariedade laboral. Que se discuta a legislação laboral, que se discuta a fraca competitividade da economia portuguesa, mas não se esqueça o grave problema de precariedade e pare de se fingir que ela não existe. Certamente que não se pretende alcançar um pretenso aumento da competitividade com recurso à mais alarve precariedade do emprego.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

O anacronismo do PCP

Domingos Lopes, destacado militante comunista, decidiu abandonar o partido e explicar o porquê desse abandono. As explicações deste militante vão na mesma linha de outros que se afastaram voluntariamente ou que foram convidados a sair e centram-se na aversão do partido ao diálogo, a dificuldade visível em lidar com a pluralidade de opinião, e na ortodoxia cega que este partido demonstra ter em relação ao que se passa no mundo. É por demais evidente que a saída do militante em questão não terá sido fruto do acaso, a pouco menos de duas semanas de um importante período eleitoral. As razões que estão subjacentes à saída de Domingos Lopes poderão não ser totalmente conhecidas, mas aquilo que é enunciado pelo ex-militante do PCP em matéria de visão do mundo e democracia interna do partido já é sobejamente conhecido. Aliás, as opiniões de dirigentes do PCP sobre regimes totalitários como o norte-coreano já não provocam espanto em ninguém. Dentro do partido há quem se reveja nototalitarismo ...