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A marcha do PCP


A marcha ou manifestação organizada pelo PCP, no passado sábado, mostra duas realidades, apesar de tudo conexas: o descontentamento de muitos cidadãos, e a instrumentalização, por parte de um partido apagado, desse descontentamento. De qualquer modo conseguiu-se mobilizar perto de 50 mil pessoas, pelas razões já assinaladas, designadamente por razões de manifesta insatisfação com as políticas do Governo.
A actual situação do país, em permanente crise económica e social, volta a dar algum ânimo a partidos como o PCP pelas seguintes razões: por um lado, as constantes dificuldades vividas pelos cidadãos fá-los duvidar da eficácia do modelo económico que é actualmente aplicado, e, em alguns casos, volta-se a acreditar num modelo de uma aparente igualdade, mas que já mostrou a sua falência; por outro lado, a crise que assola os partidos políticos têm deixado o PCP relativamente incólume; quando se analisa a inércia do PS, a inexistência do PSD e as suspeições que recaem sobre o CDS, sobra de facto o Bloco de Esquerda e o PCP.
O Partido Comunista conseguiu instrumentalizar o descontentamento que se vive, e na verdade, o PCP é exímio na tarefa de mobilização de descontentes, mesmo que muitos sejam militantes do partido, mas não oferece alternativas credíveis, e mais do que isso, abstém-se de elaborar verdadeiras alternativas exequíveis às políticas do Governo. O PCP faria melhor se mostrasse que concepção de Estado tem, que políticas exequíveis propõem para a Saúde, por que tipo de educação pugna, o que é pensa da inoperância da Justiça, etc. E mais, mostrar a proficuidade das suas propostas políticas e exequibilidade no contexto de globalização. Não chega mostrar o descontentamento pelo descontentamento, importa, essencialmente, apresentar alternativas, mostrar que é possível fazer diferente. Com efeito, é possível fazer diferente, mas existe um claro óbice no caso do PCP: contradições ideológicas e o esbarramento dessas contradições numa realidade de economia de mercado. No caso concreto do SNS, explique-se como é que é possível garantir a sustentabilidade do sistema.
De igual modo, a coerência deve ser uma característica incontornável dos partidos políticos. O PCP é, no mínimo, incoerente quando clama por liberdades que supostamente estão a ser cerceadas pela a actual governação, e simultaneamente adula tacitamente o regime castrista em Cuba, por exemplo. Mas afinal, esta é só mais uma das muitas incoerências do Partido Comunista Português.
Aliás, o PCP tem-se afundado no mais profundo silêncio, cumprindo apenas os serviços mínimos de exultar os direitos dos trabalhadores, clamar por melhores salários, mais poder de compra, pelo combate ao desemprego. Mas depois toda a engrenagem emperra quando chega a altura de dizer como se vai alcançar essas metas. De resto, a dialéctica política do PCP é anódina, o partido refugia-se numa ideologia caduca e nos lugares-comuns do costume. Talvez este seja mais um sinal do estertor do PCP.

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