terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Pessimismo na educação

O pessimismo caracteriza amiúde as discussões e percepções sobre a educação em Portugal. Compreensivelmente, muitos actores educativos sentem um misto de frustração e pessimismo. Deste modo, impõe-se uma forte crítica à actual ministra da Educação que mais não fez do que acentuar essas percepções nefastas sobre a educação, em particular, quando levou a cabo acções e uma retórica carregadas de animosidade relativamente à classe docente.
Mas o pessimismo sobre o futuro da educação não é de agora, muito pelo contrário, desde há muito tempo esse pessimismo é intrínseco à educação.
Evocar-se-ão vários factores que subjazem a uma ausência generalizada de esperança – a falta de condições nas escolas, a pouco autonomia das mesmas, as querelas entre sindicatos que representam professores e o ministério, o desânimo de pais, alunos e professores. Mas a realidade é que é essencial, por um lado, combater o conservadorismo que impera nas políticas educativas e, naturalmente, na própria escola; e por outro, importa combater os problemas do insucesso e abandono escolar.
Qualquer discussão sobre esta matéria implica a abordagem a novas formas de pensar a escola que temos. É inevitável não se constatar que a escola, a par da própria sociedade, dificilmente resiste à mudança. Já para não falar de que hoje a escola tem uma forte concorrência, quando recrudescem fenómenos como a Internet, as novas tecnologias, a preponderância da televisão, e ainda em muitos contextos – designadamente suburbanos – a rua. Urge, assim, tornar a escola mais apelativa, insistindo no rigor e numa cultura de responsabilidade. A escola não pode ser feita completamente à revelia dos alunos. Importa, pois, convergir alunos, professores e, sempre que possível famílias. De resto, será infrutífero pensar-se num conceito de escola contra os alunos. É possível conciliar todos estes elementos. Pensar-se nesta conjuntura como sendo uma utopia e ficar-se por aí mesmo é perpetuar o insucesso e abandono escolares, adiando indefinidamente o futuro dos alunos, e do próprio país.
Além do mais, o insucesso e abandono escolar combatem-se através de intervenções no processo de decisão e reforço da importância das escolhas. A importância da orientação vocacional não pode ser olhada de forma despicienda, ou como sendo pouco mais do que um simples mostruário de profissões e cursos. Senão vejamos: a escolha dos alunos não deve ser fugaz, antes pelo contrário, esse é um processo que deve ser iniciado o quanto antes com os instrumentos que permitam trabalhar o conhecimento de si próprio e formas de trabalhar a auto-estima – só depois de nos conhecermos é que podemos iniciar o importante processo de decisão. Mas todos estes elementos necessitam de um novo enquadramento de proximidade com a realidade dos alunos. É durante este processo que há frequentemente falhas que podem contribuir para o abandono escolar. Quando se verificam essas falhas, a desmotivação geralmente surge como inevitável, e daí ao abandono vai um pequeno passo.
É preciso acreditar que a educação não é um beco sem saída. Felizmente, há quem ainda trabalhe afincadamente – não prescindindo de se aproximar da realidade dos alunos –, com o propósito de combater o insucesso e abandono escolares. É também através de um melhor conhecimento de si próprio e das escolhas acertadas que surge a motivação – e há quem, já tendo percebido isso, não se coíba de repensar novas formas de intervenção junto dos alunos.
Dir-se-á que o que foi abordado neste texto é apenas a ponta do iceberg, talvez seja, mas só o simples facto de existir quem não desista e que desenvolva um trabalho de rigor, mas também de proximidade com os alunos, é desde já um bom prenúncio para o futuro da educação. Não é seguramente com preconceitos e com um pessimismo exacerbado que estamos a prestar um bom serviço ao país. Por muito que se perceba a falta de entusiasmo de quem trabalha no terreno, não deixa de ser motivador saber que ainda há quem, não obstante as adversidades e os velhos do Restelo, lute contra os falhanços da educação, que também são os falhanços de todos nós.

1 comentário:

sonia disse...

Não podia deixar de comentar este texto:). Concordo inteiramente com o que disseste, é preciso estar-se atento e não esquecer-se da sua própria adolescência. É uma pena, que muitas vezes os docentes se tornem tão adultos ao ponto de ridicularizarem muitos alunos...è uma pena, que sejam sempre os docentes os "coitadinhos", quando os clientes (alunos) são completamente ignorados. Não tiro, com isto o valor a ninguém, não sou docente mas admiro quem o é e gosta de o ser, admiro ainda mais quem luta pela mudança e se esforça por novas metodologias. Estou farta de ser confrontada com professores que menosprezam os alunos e que não deixam de ter o seu ordenado no fim do mês. Todos devemos lutar pelos nossos direitos (ainda bem que existe um sindicado dos professores) é pena que muitas outras profissões não tenham voz apesar da sua luta constante.
É uma pena…crescer-se tão rápido…