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Governo: entre o desgaste e a negligência

O Governo, designadamente o primeiro-ministro, tem-se ocupado da presidência portuguesa da União Europeia. Este facto é natural e não se pode asseverar o contrário; todavia, o Governo, na sua tarefa de presidir à União Europeia, acabou por negligenciar a governação interna. Assim, é inevitável que o desgaste resultado da tarefa de presidir à UE, tenha consequências directas – e já está a ter – na governação do país.
Por outro lado, é notório o esforço feito pelo primeiro-ministro no sentido de se vangloriar com os sucessos obtidos na presidência da UE, e, de facto, José Sócrates tem desempenhado bem o seu papel e não é isso que está em causa; o que não pode ser ignorado é que os sucessos europeus do primeiro-ministro servem na perfeição para escamotear os insucessos internos do actual Executivo.
Além do mais, a negligência do governo repercute-se nas declarações incipientes dos membros do governo, das quais o melhor exemplo tem-nos sido dado pelo ministro das Obras Públicas, Mário Lino. E a localização do novo aeroporto internacional de Lisboa é só mais uma pasta repleta de incongruências de que vamos tendo algum conhecimento.
Ora, conhecendo o primeiro-ministro como já conhecemos, é óbvio que José Sócrates vai utilizar ardilosamente a assinatura do acordo sobre o Tratado da União Europeia, no dia 13 de Dezembro, catapultando o seu sucesso para níveis exacerbados, de modo a compensar as fraquezas internas.
E quais são essas fraquezas: em primeiro lugar, importa referir que em matéria de segurança há problemas visíveis: o crime, designadamente o crime organizado, tem sofrido um recrudescimento inaudito, e neste particular a confiança do ministro da Administração Interna nas polícias é manifestamente escasso para tranquilizar os cidadãos. Na área da Educação, o estatuto do aluno – ideia genial do ministério da Educação – só vem confirmar aquilo que todos já sabem – que a educação foi, é, e se continuar a ser impregnada pela permissividade e pelo facilitismo, será um indubitável fracasso. Da mesma forma, a reforma da Administração Pública – essencial para o país – continua a ser protelada pelo Governo.
Mas há mais: as expectativas dos cidadãos num futuro melhor continuam a ser coarctadas por um Executivo que já nem sabe esconder a sua incapacidade de mudar o país e levá-lo para o caminho do desenvolvimento.
Consequentemente, a presidência europeia tem servido o Governo que vê assim as atenções serem desviadas, embora os problemas do desemprego, do emprego precário, do aumento do custo de vida sejam uma evidência para quase todos os portugueses. Ora, a pergunta que se impõe é a seguinte: de que modo é que o actual Executivo, finda a presidência da UE, vai continuar a escamotear uma realidade próxima do insustentável? A resposta é iniludível: fá-lo-á através do recurso à propaganda, à manipulação da imagem, ao culto do supérfluo – aproveitando o estado de letargia que resiste em Portugal. Entretanto, o futebol, o fim de uma telenovela e o começo de outra e o desfecho dos reality-shows vão dando os seus contributos para o desinteresse e para a inércia colectiva.

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