quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A derrota de Chávez

As propostas de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, que foram sujeitas a consulta popular sofreram uma rejeição do povo venezuelano. Essas propostas incluíam o aumento do mandato de 6 para 7 anos e a inexistência de limites na reeleição – talvez o ponto mais polémico das alterações legislativas propostas pelo presidente venezuelano. A derrota de Chávez foi por uma margem mínima, mas ainda assim foi a primeira derrota desde que Chávez chegou ao poder na Venezuela.

As análises feitas à posteriori, oscilam entre a esperança de que este sinal de que o povo venezuelano quer a democracia para o seu país, e entre a cautela de quem considera que este momento eleitoral não é mais do que um pequeno obstáculo no caminho de Chávez. Importa sublinhar que muitos venezuelanos se abstiveram desta decisão de aceitar ou não as propostas do presidente da Venezuela.

De notar que Hugo Chávez aceitou a derrota e, inclusivamente, apelou à aceitação de todos dos resultados. Contudo, parece evidente, até porque Chávez já o disse, que as intenções de Chávez fazer aprovar o seu pacote de alterações na constituição venezuelana são para manter.

Parece, com efeito, que a Venezuela não dá sinais consistentes de querer um outro regime diferente daquele que é proposto pelo actual presidente. De facto, o próprio passado recente da Venezuela explica, em larga medida, o sucesso de Chavéz – a corrupção, o alargamento do fosso entre ricos e pobres, a pobreza extrema de uma parte substancial da população são factores indissociáveis da popularidade de Hugo Chávez. Em caso de eleições, o mesmo não teria grandes dificuldades em vence-las, até porque falta robustez à oposição ao presidente Chávez.

Não obstante esta derrota, apesar de tudo tangencial, de Hugo Chávez, o futuro da Venezuela poderá continuar a passar pelas mãos daquele a que muitos colocam o epíteto de ditador. Em bom rigor, não se vislumbra um cenário diferente – os mais pobres continuam a se rever no actual presidente e a oposição encontra fraco eco nesta população. Por outro lado, e paradoxalmente, as medidas já empreendidas por Chávez no plano económico redundam numa elevada taxa de inflação e na tibieza da economia do país, que só não é maior devido às reservas energéticas que o país possui.

Chávez continuará a adoptar o estilo a que nos habitou, diabolizando os EUA, e fazendo alianças circunstanciais com países como o Irão. Continuará a levar a cabo o seu socialismo para o século XXI, com nacionalizações da economia. Em traços gerais, os vastos recursos energéticos que a Venezuela possui serão sempre utilizados engenhosamente por Hugo Chávez, seja no plano externo, seja no plano interno. Junte-se a isto uma boa dose de populismo e Chávez permanecerá no poder durante tempo indeterminado. Se esta proposta falhou, ele próprio já afirmou que não cessará os esforços para conseguir os seus intentos, sendo que o mais óbvio é eliminar quaisquer óbices à sua permanência no poder. Chávez procura outros meios, mas o fim será o mesmo.

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