Avançar para o conteúdo principal

A derrota de Chávez

As propostas de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, que foram sujeitas a consulta popular sofreram uma rejeição do povo venezuelano. Essas propostas incluíam o aumento do mandato de 6 para 7 anos e a inexistência de limites na reeleição – talvez o ponto mais polémico das alterações legislativas propostas pelo presidente venezuelano. A derrota de Chávez foi por uma margem mínima, mas ainda assim foi a primeira derrota desde que Chávez chegou ao poder na Venezuela.

As análises feitas à posteriori, oscilam entre a esperança de que este sinal de que o povo venezuelano quer a democracia para o seu país, e entre a cautela de quem considera que este momento eleitoral não é mais do que um pequeno obstáculo no caminho de Chávez. Importa sublinhar que muitos venezuelanos se abstiveram desta decisão de aceitar ou não as propostas do presidente da Venezuela.

De notar que Hugo Chávez aceitou a derrota e, inclusivamente, apelou à aceitação de todos dos resultados. Contudo, parece evidente, até porque Chávez já o disse, que as intenções de Chávez fazer aprovar o seu pacote de alterações na constituição venezuelana são para manter.

Parece, com efeito, que a Venezuela não dá sinais consistentes de querer um outro regime diferente daquele que é proposto pelo actual presidente. De facto, o próprio passado recente da Venezuela explica, em larga medida, o sucesso de Chavéz – a corrupção, o alargamento do fosso entre ricos e pobres, a pobreza extrema de uma parte substancial da população são factores indissociáveis da popularidade de Hugo Chávez. Em caso de eleições, o mesmo não teria grandes dificuldades em vence-las, até porque falta robustez à oposição ao presidente Chávez.

Não obstante esta derrota, apesar de tudo tangencial, de Hugo Chávez, o futuro da Venezuela poderá continuar a passar pelas mãos daquele a que muitos colocam o epíteto de ditador. Em bom rigor, não se vislumbra um cenário diferente – os mais pobres continuam a se rever no actual presidente e a oposição encontra fraco eco nesta população. Por outro lado, e paradoxalmente, as medidas já empreendidas por Chávez no plano económico redundam numa elevada taxa de inflação e na tibieza da economia do país, que só não é maior devido às reservas energéticas que o país possui.

Chávez continuará a adoptar o estilo a que nos habitou, diabolizando os EUA, e fazendo alianças circunstanciais com países como o Irão. Continuará a levar a cabo o seu socialismo para o século XXI, com nacionalizações da economia. Em traços gerais, os vastos recursos energéticos que a Venezuela possui serão sempre utilizados engenhosamente por Hugo Chávez, seja no plano externo, seja no plano interno. Junte-se a isto uma boa dose de populismo e Chávez permanecerá no poder durante tempo indeterminado. Se esta proposta falhou, ele próprio já afirmou que não cessará os esforços para conseguir os seus intentos, sendo que o mais óbvio é eliminar quaisquer óbices à sua permanência no poder. Chávez procura outros meios, mas o fim será o mesmo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...