quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Crise do crédito

Nas últimas semanas tem-se assistido a inúmeras tentativas por parte dos bancos centrais de colocar alguma serenidade nos mercados. A Reserva Federal Americana desceu novamente a taxa directora, o BCE só não faz o mesmo devido à subida da inflação. Entretanto, verifica-se uma subida da taxa euribor, que está perto de atingir os 5 por cento. Acresce a isto a revelação de novos indicadores negativos, designadamente o surgimento de novos sinais de abrandamento das economias e o já referido aumento da inflação. De facto, o cenário de recessão não é muito remoto, embora seja difícil traçar quaisquer cenários, consequência das inúmeras incertezas que caracterizam esta crise.
Recorde-se que a crise tem origem no mercado subprime americano, ou dito de outra forma, a concessão menos controlada de crédito de alto risco associado à baixa substancial do preço das casas nos EUA, acabou por originar uma crise que se traduz numa crise de confiança no sector bancário. A verdade é que hoje os bancos emprestam menos e mais caro a outros bancos, e estes por sua vez, fazem o mesmo com os seus clientes, afectando inexoravelmente as economias. É mesmo possível falar-se numa crise do crédito. Desta conjuntura também resulta a injecção de dinheiro nos mercados, por parte dos bancos centrais.
O que está no cerne desta crise é a desconfiança que se generalizou, em particular por parte dos bancos. O risco é hoje mais equacionado e, sempre que possível, evita-se levar a cabo operações de elevado risco. A desconfiança, o desconhecimento de qual é a situação exacta, e alguma ponderação, são hoje as palavras-chave que fazem toda a diferença no contexto de crise.
As consequências da crise do crédito mundial têm óbvias repercussões nas economias, e claro, nas bolsas. Mais uma vez, trata-se de uma questão de confiança. Com efeito, as bolsas agitam-se com o mau desempenho de alguns grandes bancos, ou grupos bancários, e não sossegam enquanto não verificarem o resultado de três grandes bancos americanos – Morgan Stanley, Bear Stearns e do colosso Goldman Sachs.
Em suma, toda a conjuntura é negativa: desvalorização do dólar, aumento da inflação, maus resultados dos grandes bancos, sinais de abrandamento da economia, e claro está, a severa crise de confiança que assola os mercados financeiros. Apesar deste cenário negativo, seria profícuo que se retirassem lições positivas desta crise, e que, deste modo, se evitasse cometer erros do passado. A transparência de muitas operações financeiras é praticamente inexistente, a opacidade é, amiúde, ignorada pela instâncias supranacionais que deveriam ter responsabilidades em evitar situações dessa natureza.
Quando se fala de maior regulação dos mercados, é-se imediatamente rotulado como estando associado a movimentos anti-globalização. Mas, de facto, é de regulação e de transparência que a globalização precisa, e mesmo os arautos do neoliberalismo não podem refutar que o caos e a opacidade não são o melhor pano de fundo para o desenvolvimento dos países – são apenas o melhor pano de fundo para fomentar egoísmos e ganâncias desvairadas.

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