
Ontem foram beatificados cerca de 500 “mártires” da guerra civil espanhola, pertencentes a uma facção apoiante de Franco. É curioso a ocorrência desta beatificação numa altura em que o governo espanhol pretende aprovar uma lei que promova a memória das vítimas de Franco. Ora, esta situação (encarada como sendo apenas uma coincidência) não tinha necessidade de existir – a Igreja católica insistiu em levar a cabo a beatificação na mesma altura em que Espanha se vê confrontada com a memória de um passado muito difícil.
Numa outra perspectiva, a Igreja cai novamente numa polémica que afecta um Papa que parece longe do Papa João Paulo II. Não se percebe esta homenagem a uma facção de Franco quando os espanhóis se debatem com um passado difícil. Refira-se que a guerra civil espanhola resultou na morte e assassínios de combatentes de ambas as partes – foram cometidas atrocidades, sem se poder acusar exclusivamente uma das partes.
De qualquer forma, o Papa Bento XVI foi imiscuir-se numa questão que terá como consequência uma polémica manifestamente desnecessária. Aliás, este Papa tem pautado o seu comportamento pela intransigência disfarçada de complacência. Mesmo nesta questão da homenagem à facção de Franco, é notória a intransigência do Papa, que insiste na glorificação dos “mártires”. Não será este um Papa que gosta de polémicas? Pelo menos desta forma sempre se vai falando da Igreja Católica… pelas piores razões.
A visibilidade subsequente a uma polémica certamente que agradará a sua Excelência. A Igreja não procura a reconciliação (pelo menos numa primeira fase), procura, ao invés, a obtenção de visibilidade fruto desta ou daquela polémica. Muito se fala da crise de fiéis que afecta a Igreja, consequência de um afastamento das pessoas da Igreja católica – não obstante alguns exercícios de fé e de mediatismo que invadem as nossas televisões. Esta é uma Igreja que não se recompõe depois da perda inexorável de influência nas sociedades.
Por fim, é impossível ignorar que com a polémica em volta da beatificação de 500 “mártires” da guerra civil espanhola, o Papa consegue mais algum tempo de antena. Mas corre simultaneamente o risco de exasperar muitos espanhóis. Na verdade, a lei da exasperação também faz parte da Igreja católica que vive numa época que seguramente não é a nossa. Sublinhe-se, de qualquer modo, que a Igreja católica deveria ter evitado imiscuir-se nesta questão, principalmente nesta altura, quando esta problemática é ainda difícil para o povo espanhol. Apesar da Igreja já ter honrado estes mártires católicos, teria sido desnecessário transformar este problema numa questão religiosa, quando se trata, desde já, de uma questão política.
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