sexta-feira, 14 de setembro de 2007

O silêncio da resignação


O país, ultrapassada a silly season, afunda-se na resignação e é dominado por assuntos cujo interesse nacional é difícil de explicar. Embora o país não pare, a sensação que se tem ao ver televisão, por exemplo, é a de um país meio adormecido, sem interesse e dominado pela vacuidade ou pelos excessos.

Embora estas semanas tenham sido ricas em acontecimentos para a vida dos portugueses – muitos desses acontecimentos consubstanciam-se em profundas alterações em diversas áreas –, a verdade é que entre os desenvolvimentos do caso Maddie, a atitude intempestiva do seleccionador nacional e a distribuição folclórica de computadores pelo Governo, não há espaço para se discutir os verdadeiros problemas do país.

Se por um lado, a presidência do Conselho Europeu ocupa parte substancial do tempo e atenção do Governo, não é menos verdade que o Governo não poderia ter tarefa mais facilitada do que esta, na medida em que as pessoas estão mais interessadas nos casos que dominam a opinião pública, do que em perceber as consequências de um futuro impedimento no que diz respeito à divulgação de escutas telefónicas que não estão em segredo de justiça. Este exemplo é paradigmático do silêncio que se instalou num país de resignados e distraídos.

A verdade é que este é o pano de fundo ideal para o Governo. As pessoas aparentemente resignaram-se e muitas parecem ter desistido, não obstante as queixas inócuas feitas no seio da família ou em cafés. A comunicação social é refém de dois ou três assuntos que dominam o espaço mediático. A oposição é anódina, desprovida de ideias e passa a vida envolvida em tricas partidárias ou em escândalos (ignorados pelos portugueses e rapidamente esquecidos) de financiamento irregular – o caso do PSD e da Somague é o paradigma de um país que deixou de se interessar e de um partido que não manifestou mais do que uma profunda irresponsabilidade.

É deste modo que o Governo tem tarefa facilitada até 2009, e pode mesmo dar-se ao luxo de entregar computadores, num excesso de propaganda política a resvalar para o ridículo, sem que quase ninguém se incomode com isso. Entre o folclore político e a resignação dos portugueses, ficou por explicar o modo de financiamento desta medida que serviu na perfeição os intentos populistas do Governo. E é a propaganda política que escamoteia os reais problemas do país. Infelizmente, afundamo-nos na mediocridade e inanidade, e o mais grave é que nos contentamos com isso.

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