sexta-feira, 17 de agosto de 2007

O descontentamento

Se por um lado, já se tinha o conhecimento real de que cada vez se vive pior no nosso país; por outro lado, os últimos estudos da União Europeia a 15 expõem a clivagem entre Portugal e a generalidade dos Estados-membros da União Europeia. Em Portugal ganha-se em média menos 40 porcento comparativamente com os restantes países que compõem a Europa a 15. Foi também notícia esta semana que o fosso entre ricos e pobres é maior em Portugal do que noutros países europeus.
Estes dois indicadores são sintomáticos de um país que atravessa uma crise persistente, e mais: estes indicadores mostram um país cada vez mais desigual. Ora, as melhorias que tardam em chegar para a generalidade dos portugueses, parece que chegaram antecipadamente a outros portugueses que, segundo uma revista conceituada, aumentaram em cerca de 35 porcento a sua riqueza. Perante isto, é impossível continuar a escamotear o seguinte: Portugal é um país que não encontra o rumo do desenvolvimento sustentável, muito pelo contrário, por vezes parece ser um país da América do Sul.
Por muitas razões que sejam apontadas para justificar todas as dificuldades que o país atravessa, não é viável que o retrocesso nas condições de vida dos portugueses possa continuar. E o mais grave é que, apesar das promessas do Governo – no contexto do ímpeto reformista –, não estão a ser operadas as mudanças necessárias em áreas estratégicas. O que é que se está a fazer na área da Justiça? A reforma da Administração Pública cinge-se apenas aos funcionários públicos? A Educação foi esquecida? Deste modo, não se está a construir um país com futuro.
Sublinhe-se ainda o definhamento da classe média que é um facto indubitável e que tem vindo a agravar-se nos últimos anos. Este é um sinal claro de que o país está condenado ao permanecer no último lugar que ocupa nos rankings europeus que digam respeito à qualidade de vida – esta deixou de existir para muitos portugueses.
O descontentamento vai deixando, gradualmente, de ser silencioso. São demasiados os jovens que vivem na precariedade, desprovidos de quaisquer perspectivas, são demasiadas as pessoas que vivem no desemprego. Da mesma forma, os salários estagnaram ou minguaram, mas no sentido diametralmente oposto, o poder de compra sofreu um duro decréscimo. Vive-se mal, e quando se estabelecem paralelos com outros países europeus, essa percepção sofre um novo reforço.
Enfim, o Governo tem de sair da sua habitual redoma de arrogância e distanciamento. Isto porque não há nada mais perigoso do que um povo que vive mal e perde a esperança de poder viver melhor.

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