Avançar para o conteúdo principal

Mais uma intransigência do Governo


O afastamento da directora do Museu Nacional de Arte Antiga é mais uma intransigência do Governo. Ao invés de permitir o diálogo aberto, a troca de ideias e promover as boas relações entre directores e as respectivas tutelas, o Governo, através da ministra da Cultura, faz precisamente o inverso, afasta quem se manifesta contra o que foi estipulado pelo Governo.
Em rigor, não se pode comparar este caso da directora do MNAA com o caso Charrua ou com a directora de um centro de saúde de Vieira do Minho. Trata-se de um conflito sobre o modelo de gestão do mais importante museu português. De qualquer modo, a ministra da Cultura age de forma errada, não percebendo que o clima de suspeição que foi criado por este Governo é indelével e exacerba qualquer caso que apresente similitudes com os já referidos. É natural que alguns partidos da oposição tenham empolado este afastamento e é sobejamente conhecida a estratégia deste partidos: sendo óbvia a sua impotência em apresentar alternativas às políticas do Governo, não lhes resta outra opção que não seja a de aproveitarem os erros do Governo.
O trabalho da directora em questão tem sido alvo dos mais variados elogios: as receitas aumentaram e o mesmo se passou com a afluência de público ao museu. A justificação para o seu afastamento prende-se com discordâncias sobre a autonomia do museu. É evidente que, depois de tantas situações a evidenciarem laivos de autoritarismo do Governo, este caso tenha tomado proporções exacerbadas. Refira-se, contudo, que o afastamento da directora é erro dúplice: um erro que tem implicações no futuro do próprio museu, mas é também um erro político graças à existência de um clima que não se coaduna com os princípios democráticos.

Os membros do Governo têm manifestado uma acentuada insensatez na forma como têm lidado com as discordâncias dos seus funcionários. E é este o calcanhar de Aquiles do Executivo de José Sócrates: lida mal com a crítica, e a resposta a essas críticas traduz-se, amiúde, no afastamento dos seus autores. O clima de mal-estar está instalado e de cada vez que o actual Executivo afastar alguém por falta de confiança política ou institucional, o Governo sairá novamente fragilizado.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fascismo

A palavra, o conceito, a ideia, são considerados por muitos coisa de um passado que já não regressa. Tudo terá morrido na primeira metade do século passado. E apesar de alguns governos, sobretudo na Europa, adoptarem o fascismo como base de governação, a UE continua existindo como se nada fosse, como se nada fosse consigo. Viktor Órban, primeiro-ministro da Hungria, e o seu partido Fidesz, aprovaram uma medida que visa criminalizar quem preste auxílio a imigrantes sem documentos e assim acabar com o trabalho das ONG. Se isto não é fascismo não sei o que será. Recorde-se que este é apenas um dos muitos atropelos do Governo de Órban aos Direitos Humanos e que a família europeia a que Órban pertence remete-se, uma vez mais, ao silêncio. Essa família é o Partido Popular Europeu. Em Itália, o ministro do Interior, o execrável Matteo Salvini, quer recensear os ciganos para expulsar os estrangeiros, mais uma lista, adiantando ainda que "quanto aos ciganos italianos, talvez t…

O maior desafio da Europa

Há uns escassos quatro anos atrás dir-se-ia que o maior desafio da União Europeia seria a crise económica. Hoje dir-se-á que o maior desafio da Europa é a questão das migrações.
É evidente que o problema económico não desapareceu, encontrando-se apenas adormecido, à espera que uma nova crise financeira o acorde. Quanto à problemática das migrações, a UE está apenas a pagar a factura de ter contribuído para a instabilidade de Estados como a Síria e a Líbia, assim como paga também a factura de ter apostado durante décadas numa política de integração acéfala e desregulada, tratando os imigrantes com um misto de paternalismo e permissividade, criando amiúde desigualdades na forma de tratamento entre cidadãos. O resultado, como não podia deixar de ser, está à vista: endurecimento das políticas migratórias, a criação e leis cujo o alvo é especifica e unicamente os imigrantes e toda uma deriva xenófoba.
Nem a propósito, o New York Times (NYT) ofereceu aos seus leitores uma report…

Incêndios e a reportagem da TVI

A TVI, num exemplo perfeito do que deve ser o jornalismo de investigação, mostrou ao país os responsáveis pelo incomensurável incêndio que devorou o Pinhal de Leiria e como esse incêndio foi premeditado. A reportagem da TVI mostra uma multiplicidade de madeireiros reunidos numa cave de um restaurante a congeminarem o incêndio que devastou o Pinhal de Leiria, num registo próprio de uma qualquer máfia. Por um lado, o Ministério Público parece mais interessado em despejar na comunicação social vídeos dos interrogatórios de José Sócrates do que em investigar e levar à justiça os verdadeiros responsáveis pelos incêndios que assolaram o país no ano de 2017. Por outro lado, não se encontra justificação para que esta reportagem tenha feito tão pouco eco nos restantes órgãos de comunicação social. Fica a ideia de que é mais agradável apontar o Governo como grande responsável pelos incêndios do que trazer à luz do dia os verdadeiros criminosos. Vale mais explorar a tese que postula a ideia de q…