
As recentes eleições turcas que deram uma vitória clara ao partido AKP trouxeram por arrasto a polémica discussão sobre a futura adesão da Turquia à União Europeia. A adesão deste país à UE não pode ser analisada de forma despicienda. E do mesmo modo, as divisões que existem no seio da União Europeia acerca desta polémica questão são um sinal claro de que ainda existem demasiadas dúvidas sobre a adesão da Turquia. Se é verdade que a exequibilidade de uma União Europeia constituída por demasiados Estados poderá ser posta em causa, não é menos verdade que a entrada de um país como a Turquia não pode ser considerada como mais uma adesão de muitas.
A União Europeia tem sido complacente nesta matéria, e tem alimentado a esperança (e para muitos a certeza) de que a entrada da Turquia para a União Europeia é um facto que acontecerá. Assim, torna-se a questão ainda se torna mais intrincada; ao exigir-se que a Turquia inicie e conclua reformas em troco de uma adesão ao clube europeu, ainda se está para perceber como é que a UE vai aceitar a adesão da Turquia com a rejeição de países como a França e Áustria. E o que pensam os cidadãos europeus desta futura adesão? Pelo lado da França, o presidente Nicholas Sarkozy já afirmou que a Turquia não tem lugar na UE.
Os apologistas da adesão turca evocam a posição geográfica da Turquia como sendo privilegiada e importante do ponto de vista geo-estratégico para os interesses da UE. Asseveram ainda o sinal positivo que seria enviado para a generalidade dos países islâmicos – a UE deixaria de ser um clube cristão e aceitaria a entrada de um país muçulmano. Contudo, e apesar de se reconhecer validade nesta linha de argumentação, não deixa de ser importante reflectir sobre a entrada de um país com as características da Turquia para o seio da UE.
Existe um argumento difícil de rebater: a Turquia é constituída por 73 milhões de habitantes e segundo algumas estimativas tornar-se-á, dentro de alguns anos, no maior país da UE – caso consiga uma integração plena. Ora, será que estamos dispostos a ter como o maior país da UE um país de maioria muçulmana? É mesmo isso que queremos? Existem argumentos que não podem ser descartados de modo leviano, em nome de uma suposta inevitabilidade. E a este argumento acrescente-se o facto da UE continuar a alargar-se de forma irresponsável; já para não falar da questão geográfica.
Não obstante a complexidade de uma possível adesão deste país à União Europeia, são poucos os líderes europeus que manifestam o seu total desagrado com essa adesão. A aproximação da Turquia à Europa é essencial, porém, a entrada deste país para a UE poderá ser um passo em falso com consequências desastrosas para a UE. Entretanto, continua-se a prometer uma integração total deste país na UE sem se contemplar todo um conjunto de mudanças que essa integração representará para a União Europeia. Ou será que andamos a enganar a Turquia? Talvez nos andemos a enganar a nós próprios.
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