Avançar para o conteúdo principal

Estado da nação


Mais um debate sobre o estado da nação, mais um jogo de retórica a apelar à imaginação dos membros do Governo. Se por um lado o Governo pode enaltecer os resultados positivos da economia portuguesa – reconhece-se e aplaude-se o crescimento da economia portuguesa, graças, em larga medida, ao crescimento das exportações –, não se pode olvidar, contudo, que se vive pior em Portugal.

O crescimento da economia não esconde, porém, que as reformas do Governo pouco ou nada têm atingido o lado da despesa. Apesar de as previsões para a economia serem animadoras, a verdade é que a generalidade dos portugueses não tem conhecido outra coisa que não sejam as dificuldades crescentes. E é este o país real que passa ao lado do discurso auto-lisonjeador do Governo, seja no debate sobre o estado da nação, seja em quaisquer outras circunstâncias.

Por outro lado, os portugueses voltaram a conhecer de perto a deriva autoritária de quem nos governa. É inaceitável que se oiça falar com tanta insistência em delatores, em cerceamento de liberdades e no clima de receio em se opinar contra os ditames deste Governo. É intolerável que o Governo possa fomentar este estado de coisas, e com o precioso recurso ao silêncio possa potenciar a delação e a chibaria mais reles. Sendo, no entanto, verdade que existe quem aprecie subjugar-se ao silêncio e à obediência de tipo canino. De qualquer modo, a tal deriva autoritária que visa condicionar opiniões contra o Governo e que visa condicionar alguns meios de comunicação social merece o mais absoluto repúdio. Felizmente muitos de nós não abdicam de expressar a sua opinião, e mais: lutarão sempre pela salvaguarda das liberdades.

O Estado da Nação não é recomendável por muito que o Governo tente nos convencer disso mesmo. Os cidadãos deste país não se livram de elevadas taxas de desemprego, do emprego precário, do aumento da carga fiscal, da diminuição abjecta do poder de compra, e agora vêem a sua liberdade de expressão condicionada por um Governo que convive mal com a pluralidade de opinião.

Em conclusão, das duas uma: ou o Governo tenta alimentar a todo o custo uma ilusão de um país que só os seus membros conhecem, ou os mesmos padecem de alguma doença que não lhes permite reconhecer a realidade. Seja como for, todos aqueles que tentam sobreviver a uma crise que parece inesgotável sabem que o estado da nação anda longe daquele que é apregoado pelo Governo. Assim, talvez não fosse má ideia o Sr. primeiro-ministro ouvir os cidadãos, afastando-se, deste modo, da sua insuportável arrogância.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Mais uma indecência a somar-se a tantas outras

 O New York Times revelou (parte) o que Donald Trump havia escondido: o seu registo fiscal. E as revelações apenas surpreendem pelas quantias irrisórias de impostos que Trump pagou e os anos, longos anos, em que não pagou um dólar que fosse. Recorde-se que todos os presidentes americanos haviam revelado as suas declarações, apenas Trump tudo fizera para as manter sem segredo. Agora percebe-se porquê. Em 2016, ano da sua eleição, o ainda Presidente americano pagou 750 dólares em impostos, depois de declarar um manancial de prejuízos, estratégia adoptada nos tais dez anos, em quinze, em que nem sequer pagou impostos.  Ora, o homem que sempre se vangloriou do seu sucesso como empresário das duas, uma: ou não teve qualquer espécie de sucesso, apesar do estilo de vida luxuoso; ou simplesmente esta foi mais uma mentira indecente, ou um conjunto de mentiras indecentes. Seja como for, cai mais uma mancha na presidência de Donald Trump que, mesmo somando indecências atrás de indecência...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...