Avançar para o conteúdo principal

A cegueira do PS


O presidente da federação distrital do PS-Porto já veio a público reiterar a confiança deste partido na directora regional de Educação do Norte; a mesma que suspendeu um professor por este ter, alegadamente, lançado impropérios ao primeiro-ministro. O ilustre membro do PS adiantou ainda que a directora tem feito um trabalho louvável à frente da DREN, e critica a “inversão de valores que se verificou neste caso” – parece que o professor suspenso é agora “um novo herói nacional”, segundo as palavras deste membro do PS.



O que foge à percepção de algumas pessoas ligadas ao PS é que este polémico caso deu um forte contributo para a sensação geral de se viver num país onde as liberdades são condicionadas. Refira-se novamente que o professor foi suspenso em consequência da actuação premeditada de um bufo, com a clara aprovação da directora. Por muito graves que tenham sido as palavras do professor, a bufaria e o incentivo à delação é que chocaram a opinião pública.


Não se compreende, pois, como é que estes ilustres membros do PS falem em “inversão de valores”, defendam a permanência desta directora, e relativizem a questão do cerceamento e da delação premiada por um directora que não merece um lugar ao serviço do Estado português.


Com efeito, o caso DREN foi apenas mais um, entre vários, que foram paradigmáticos de uma governação que se apoia na arrogância e na aparência; uma governação fragilizada por isso mesmo. Quando alguém contraria o rumo natural do Governo, esse alguém é penalizado. Não basta dizer que o Partido Socialista é o partido das liberdades, nem tão-pouco bastará evocar a importância histórica do PS na conquista das liberdades.


Deste modo, seria mais inteligente da parte de alguns membros do PS evitarem elogiar uma funcionária do Estado que premiou a delação. Ao fazê-lo o PS está à apoiar e incentivar essa delação.


O arquivamento do processo por parte da ministra da Educação não passou de uma tentativa de acabar com a polémica que tem prejudicado a imagem do Governo. Aquilo que o Governo e o seu séquito têm de perceber é que se instalou, em Portugal, a ideia de que se pode ser penalizado por se criticar o Governo. As declarações do presidente da federação distrital do PS-Porto só confirmam aquilo que muitos de nós já sabíamos: a chibaria é aplaudida pelo Governo de José Sócrates e por membros do PS - o partido das liberdades.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fascismo

A palavra, o conceito, a ideia, são considerados por muitos coisa de um passado que já não regressa. Tudo terá morrido na primeira metade do século passado. E apesar de alguns governos, sobretudo na Europa, adoptarem o fascismo como base de governação, a UE continua existindo como se nada fosse, como se nada fosse consigo. Viktor Órban, primeiro-ministro da Hungria, e o seu partido Fidesz, aprovaram uma medida que visa criminalizar quem preste auxílio a imigrantes sem documentos e assim acabar com o trabalho das ONG. Se isto não é fascismo não sei o que será. Recorde-se que este é apenas um dos muitos atropelos do Governo de Órban aos Direitos Humanos e que a família europeia a que Órban pertence remete-se, uma vez mais, ao silêncio. Essa família é o Partido Popular Europeu. Em Itália, o ministro do Interior, o execrável Matteo Salvini, quer recensear os ciganos para expulsar os estrangeiros, mais uma lista, adiantando ainda que "quanto aos ciganos italianos, talvez t…

O maior desafio da Europa

Há uns escassos quatro anos atrás dir-se-ia que o maior desafio da União Europeia seria a crise económica. Hoje dir-se-á que o maior desafio da Europa é a questão das migrações.
É evidente que o problema económico não desapareceu, encontrando-se apenas adormecido, à espera que uma nova crise financeira o acorde. Quanto à problemática das migrações, a UE está apenas a pagar a factura de ter contribuído para a instabilidade de Estados como a Síria e a Líbia, assim como paga também a factura de ter apostado durante décadas numa política de integração acéfala e desregulada, tratando os imigrantes com um misto de paternalismo e permissividade, criando amiúde desigualdades na forma de tratamento entre cidadãos. O resultado, como não podia deixar de ser, está à vista: endurecimento das políticas migratórias, a criação e leis cujo o alvo é especifica e unicamente os imigrantes e toda uma deriva xenófoba.
Nem a propósito, o New York Times (NYT) ofereceu aos seus leitores uma report…

Incêndios e a reportagem da TVI

A TVI, num exemplo perfeito do que deve ser o jornalismo de investigação, mostrou ao país os responsáveis pelo incomensurável incêndio que devorou o Pinhal de Leiria e como esse incêndio foi premeditado. A reportagem da TVI mostra uma multiplicidade de madeireiros reunidos numa cave de um restaurante a congeminarem o incêndio que devastou o Pinhal de Leiria, num registo próprio de uma qualquer máfia. Por um lado, o Ministério Público parece mais interessado em despejar na comunicação social vídeos dos interrogatórios de José Sócrates do que em investigar e levar à justiça os verdadeiros responsáveis pelos incêndios que assolaram o país no ano de 2017. Por outro lado, não se encontra justificação para que esta reportagem tenha feito tão pouco eco nos restantes órgãos de comunicação social. Fica a ideia de que é mais agradável apontar o Governo como grande responsável pelos incêndios do que trazer à luz do dia os verdadeiros criminosos. Vale mais explorar a tese que postula a ideia de q…