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Tourada


As touradas são indubitavelmente uma questão que divide opiniões, e com frequência torna-se difícil não resvalar para a radicalização quando se discute este tema. Aqueles que defendem convictamente a existência destes espectáculos encaram os seus argumentos como irrefutáveis e o mesmo acontece com quem luta pelo fim das touradas. O que sobressai na discussão desta matéria é a paixão com que um e outro lado debatem o assunto, e a razão parece ficar ausente dessas mesmas discussões. Seguramente que este tema não deixa ninguém indiferente. É com enorme dificuldade que se debate este assunto, sem que essa troca de ideias e de argumentos acabe de forma mais exaltada.

Analisando friamente o espectáculo da tourada, deparamo-nos com vários problemas. O principal prende-se com o sofrimento dos animais (touros e por vezes cavalos) para gáudio de milhares de pessoas. Este sofrimento é inquestionavelmente gratuito, visto não se justificar em absoluto a existência destes espectáculos, a não ser para prazer de alguns seres humanos. Quem é apologista das touradas utiliza outra terminologia, não recorre naturalmente à palavra sofrimento (muitos negam que o animal seja alvo de qualquer tipo de sofrimento). Todavia, é precisamente de sofrimento que se está a falar, este é o cerne da questão. O animal está numa arena a sofrer todo o tipo de sevícias, não me parece que se possa, de alguma forma, contrariar este facto. Aquilo que muitas vezes é ofuscado por algumas discussões mais acaloradas é a existência de dois campos opostos: os que aceitam (mesmo que não o admitam) o sofrimento de um ou de vários animais e aqueles que não aceitam e lutam contra esse sofrimento.

Muitos defensores das touradas afirmam que não é apenas nas praças de touros que os animais sofrem. É verdade. No entanto, isso não embeleza, nem justifica esses espectáculos. Trata-se, portanto, de um argumento falacioso. Outros recorrem a argumentos de outra natureza, falam em valentia e coragem por parte dos intervenientes das touradas, justificam a existência destes espectáculos com toda uma retórica de desafio. Abordam a questão dos instintos dos touros, e defendem que os touros existem, em larga medida, para serem elementos centrais nas touradas. Todos estes argumentos fazem todo o sentido para quem retira prazer destes espectáculos, mas não apaga aquilo que é incontornável em toda esta questão: o sofrimento absoluto dos animais que fazem parte destes espectáculos. Ninguém poderá ser exímio na tarefa de me convencer que esse sofrimento e dor estão ausentes das touradas. Este é um assunto que merece mais e melhor debate, mas nada me fará esquecer uma frase de Shopenhauer quando este filósofo faz o seguinte desabafo: “às vezes mais me parece que os Homens são demónios e os animais as almas atormentadas”.

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