Avançar para o conteúdo principal

Lisboa em crise


A situação política em Lisboa atingiu uma gravidade insustentável, nestas condições como é que alguém pode pensar perpetuar a situação de crise política em Lisboa mantendo o actual executivo? O ainda presidente da câmara de Lisboa não soube lidar com o facto de passar a ser mais um autarca arguido. Com efeito, o autarca não percebeu que ao fugir das perguntas dos jornalistas, está também a fugir às interrogações dos lisboetas. Mais do que ser constituído arguido, o problema reside na gestão destes últimos dias: a visita a uma exposição fora do país, as constantes ausências da câmara municipal, a imagem de um autarca que se esquiva às perguntas difíceis, um autarca que tem uma visão míope da política, demitindo-se de prestar esclarecimentos aos cidadãos da capital. Não será com uma conferência de imprensa que a sua imagem melhorará, isto porque, na verdade, o líder da câmara municipal já ficou com a imagem do autarca em fuga.

A todo este intrincado processo bragaparques que afecta agora o presidente da câmara, junta-se também uma acentuada crise financeira que compromete a edilidade. Ora, nestas circunstâncias, e com a agravante de não existir estabilidade entre as diversas forças políticas na câmara, não se vislumbram condições para a manutenção do actual executivo à frente dos destinos de Lisboa. Deste ponto de vista, a solução lógica passa pela realização de eleições intercalares, e felizmente a generalidade dos partidos políticos com representação na câmara já se prepara para essa eventualidade, admitindo-a como sendo a única forma de resolver o imbróglio da câmara.

Importa, sobretudo, salvaguardar a viabilidade da câmara no plano financeiro, e para isso é fundamental que se consiga uma reforçada estabilidade política. Contudo, as perspectivas para Lisboa não são as melhores. E porquê? Porque as alternativas dos partidos políticos para a câmara municipal de Lisboa são escassas e desprovidas de qualidade. Além disso, são invariavelmente as mesmas pessoas a serem indicadas como possível escolha deste ou daquele partido. Muitos cidadãos estarão extenuados com a constante instabilidade que assola a câmara de Lisboa e com a escassez de alternativas para substituir o actual executivo. De facto, os partidos políticos são os principais responsáveis por toda esta instabilidade, na medida em que demonstram uma acentuada inépcia na escolha dos candidatos, e amiúde a competência desses candidatos não é a razão primordial para justificar essa escolha.

Enfim, a situação em Lisboa é ingovernável, talvez nunca tenha sido verdadeiramente governável. Assim, espera-se que todos os partidos políticos mostrem alguma ponderação e responsabilidade na escolha de candidatos para as próximas eleições. A conduta do líder do PSD nesta matéria, ainda que nem sempre tenha sido absolutamente irrepreensível, pautou-se por algum equilíbrio e coerência – autarcas constituídos arguidos em casos de alguma gravidade devem ser afastados do cargo –, o líder do PSD tomou a decisão certa. Para além disso, a situação de grave instabilidade financeira e política que atingiu Lisboa não recomenda a manutenção do actual executivo. Espera-se que após as próximas eleições para a câmara de Lisboa, o futuro possa vir a ser, de facto, mais promissor. A cidade de Lisboa merece mais e melhor.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Fim do sigilo bancário

Tudo indica que o sigilo bancário vai ter um fim. O Partido Socialista e o Bloco de Esquerda chegaram a um entendimento sobre a matéria em causa - o Bloco de Esquerda faz a proposta e o PS dá a sua aprovação para o levantamento do sigilo bancário. A iniciativa é louvável e coaduna-se com aquilo que o Bloco de Esquerda tem vindo a propor com o objectivo de se agilizar os mecanismos para um combate eficaz ao crime económico e ao crime de evasão fiscal. Este entendimento entre o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista também serve na perfeição os intentos do partido do Governo. Assim, o PS mostra a sua determinação no combate à corrupção e ao crime económico e, por outro lado, aproxima-se novamente do Bloco de Esquerda. Com efeito, a medida, apesar de ser tardia, é amplamente aplaudida e é vista como um passo certo no combate à corrupção, em particular quando a actualidade é fortemente marcada por suspeições e por casos de corrupção. De igual forma, as perspectivas do PS conseguir uma ma...

Mais uma indecência a somar-se a tantas outras

 O New York Times revelou (parte) o que Donald Trump havia escondido: o seu registo fiscal. E as revelações apenas surpreendem pelas quantias irrisórias de impostos que Trump pagou e os anos, longos anos, em que não pagou um dólar que fosse. Recorde-se que todos os presidentes americanos haviam revelado as suas declarações, apenas Trump tudo fizera para as manter sem segredo. Agora percebe-se porquê. Em 2016, ano da sua eleição, o ainda Presidente americano pagou 750 dólares em impostos, depois de declarar um manancial de prejuízos, estratégia adoptada nos tais dez anos, em quinze, em que nem sequer pagou impostos.  Ora, o homem que sempre se vangloriou do seu sucesso como empresário das duas, uma: ou não teve qualquer espécie de sucesso, apesar do estilo de vida luxuoso; ou simplesmente esta foi mais uma mentira indecente, ou um conjunto de mentiras indecentes. Seja como for, cai mais uma mancha na presidência de Donald Trump que, mesmo somando indecências atrás de indecência...