Avançar para o conteúdo principal

Consensos alargados

Depois da trapalhada em torno das alterações à Lei do Financiamento dos Partidos Políticos, os ditos partidos envolvidos na polémica decidiram fazer um comunicado conjunto onde nada é verdadeiramente esclarecido, optando por passar o problema para o Presidente da República. Porém, há uma espécie de argumento que é invocado: o consenso alargado em torno do assunto.

Ora, o consenso alargado vale de muito pouco quando tudo é decidido na penumbra, longe dos cidadãos, às escondidas. Paralelamente, um consenso alargado, por si só, valida exactamente o quê? Melhora a história em que aspecto? E se existisse um consenso no Parlamento, imaginemos por absurdo, sobre o regresso da pena de morte, isso justificaria esse incomensurável retrocesso civilizacional?

Existiam problemas com a anterior legislação sobre o financiamento dos partidos políticos, essa parece ser uma evidência. O que não quer dizer, contudo, que estas alterações contribuam para melhorar, sobretudo cozinhadas na penumbra, muito longe de qualquer debate público. E é isso que poucos deputados parece perceberem. Assim como aparentemente terão dificuldades em compreender que são medidas como estas, engendradas à revelia dos cidadãos, às escondidas - repito - que contribuem inexoravelmente para o afastamento dos cidadãos das instituições democráticas  - uma machadada na democracia - a antítese do que deveria ser a missão dos representantes políticos eleitos.
Por conseguinte, consensos alargados, sobretudo no actual contexto, de nada valem. Servem apenas para reforçar a perigosa ideia de que são todos iguais.

Comentários

osátiro disse…
Análise certeira do problema.
O facto de ter sido tudo cozinhado na penumbra demonstra má consciência dos autores

Mensagens populares deste blogue

Sobre os criminosos: Jair Bolsonaro

Dança das cadeiras com a Alemanha a mandar

A Alemanha voltou a mostrar quem manda na União Europeia, desta feita através de uma jogada política de última hora que, na prática, resultará na escolha de Ursula Von Der Leyen para o cargo de Presidente da Comissão Europeia, substituindo Jean-Claude Junker. A jogada de Merkel deixou os socialistas exasperados por não cumprir o sistema de escolha de um dos Spitzenkandidaten, cabeças de lista. A escolha de Ursula Von Der Leyen que contará com alguma oposição (vamos ver quanta) no Parlamento e a escolha de Lagarde para o BCE são derrotas para os socialistas europeus, mas também deixam um sabor amargo na boca dos cidadãos europeus que assistem a estes golpes encabeçados por países como a Alemanha e a França e seus acólitos, tudo em manifestações pouco consonantes com a democracia. Estas escolhas demonstram uma vez mais que na dança das cadeiras é a Alemanha que manda numa Europa à deriva, a milhas de distância dos seus cidadãos.

Um desastre climático por semana

A frase em epigrafe foi proferida por Mami Mizoturi, representante especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas - "um desastre climático por semana". Torna-se impossível não perceber a gravidade das alterações climáticas quando o ritmo dos desastres climáticos é tão acelerado.
Ora, este responsável acrescenta ainda que "as alterações climáticas não são do futuro, acontecem hoje". Isto depois do próprio secretário-geral das Nações Unidas ter feito capa da Time dentro de água, desalentado. O desespero é evidente.
A estratégia sugerida passa, desde já, por mais investimento em infra-estruturas, ou seja procurarmos uma adaptação às mudanças. Já.
No meio de cenários tão desoladores, encontramos ainda assim uma boa notícia: a cada vez maior visibilidade e assimilação do problema, o que implicará uma maior pressão, uma militância mais acérrima e uma maior exigência de uma inexorável mudança.
Está a chegar o dia em que líderes como Trump deixem d…