Avançar para o conteúdo principal

Uma Europa sem saber o que fazer com os anseios independentistas

Independentemente de como será o futuro próximo da Catalunha, a vontade de parte dos catalães - resta quantificá-la - não esmorecerá, bem pelo contrário. Paralelamente, a questão da Catalunha pode contribuir  para o reacendimento da luz independentista em vários países europeus, com maior ou menor intensidade. E apesar do processo falhar, aparentemente.
Não levará muito tempo até se começar a trazer à colação a vontade dos povos, colocando-se em causa o próprio conceito de Estado-nação. E quem pensa que o afastamento de Puigdemont ou eventualmente a sua prisão e o esmagamento de qualquer tendência independentista resolve o assunto, estará muito enganado. Rajoy engana-se a si próprio e aos espanhóis quando julga que é através da intransigência e da recusa de qualquer espécie de diálogo que colocará um ponto final na questão da Catalunha independente. Depois de cortar as aspirações de maior autonomia - que provavelmente resolveria o assunto - escolhe agora desferir golpes derradeiros nas intenções independentistas, com repressão e prisões.
Por outro lado, a UE que finge não sair beliscada com o Brexit, que finge que o pior da crise, erradamente atribuída a alguns Estados-membros, bodes expiatórios de excelência, já passou e que finge ainda alguma espécie de coesão, não sabe o que fazer com o levantamento de questões independentistas. Entre dentes vai-se manifestando próxima da Espanha e oficialmente procura não se imiscuir. Nem uma posição, nem a outra contribuem para qualquer solução. A Europa também neste particular comporta-se como uma barata tonta que não sabe muito bem para onde ir. Sente que uma Catalunha independente e eventualmente outras regiões independentes vão contra o espírito europeu de união e coesão, mas não sabe como agir, desde logo porque essa união e coesão são meras ilusões que alimentam uma elite que não quer perceber o que está errado com a UE. Em suma, trata-se de uma Europa que esqueceu há muito da necessidade de ouvir os cidadãos.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Sobre os criminosos: Jair Bolsonaro

Dança das cadeiras com a Alemanha a mandar

A Alemanha voltou a mostrar quem manda na União Europeia, desta feita através de uma jogada política de última hora que, na prática, resultará na escolha de Ursula Von Der Leyen para o cargo de Presidente da Comissão Europeia, substituindo Jean-Claude Junker. A jogada de Merkel deixou os socialistas exasperados por não cumprir o sistema de escolha de um dos Spitzenkandidaten, cabeças de lista. A escolha de Ursula Von Der Leyen que contará com alguma oposição (vamos ver quanta) no Parlamento e a escolha de Lagarde para o BCE são derrotas para os socialistas europeus, mas também deixam um sabor amargo na boca dos cidadãos europeus que assistem a estes golpes encabeçados por países como a Alemanha e a França e seus acólitos, tudo em manifestações pouco consonantes com a democracia. Estas escolhas demonstram uma vez mais que na dança das cadeiras é a Alemanha que manda numa Europa à deriva, a milhas de distância dos seus cidadãos.

Um desastre climático por semana

A frase em epigrafe foi proferida por Mami Mizoturi, representante especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas - "um desastre climático por semana". Torna-se impossível não perceber a gravidade das alterações climáticas quando o ritmo dos desastres climáticos é tão acelerado.
Ora, este responsável acrescenta ainda que "as alterações climáticas não são do futuro, acontecem hoje". Isto depois do próprio secretário-geral das Nações Unidas ter feito capa da Time dentro de água, desalentado. O desespero é evidente.
A estratégia sugerida passa, desde já, por mais investimento em infra-estruturas, ou seja procurarmos uma adaptação às mudanças. Já.
No meio de cenários tão desoladores, encontramos ainda assim uma boa notícia: a cada vez maior visibilidade e assimilação do problema, o que implicará uma maior pressão, uma militância mais acérrima e uma maior exigência de uma inexorável mudança.
Está a chegar o dia em que líderes como Trump deixem d…