Avançar para o conteúdo principal

Contradições

Já se sabia que Marcelo Rebelo de Sousa não estava nada habituado a contraditório. Foram muitos anos de conversa prazenteira e inconsequente com uma Judite ou entrevistador similar. Todavia, não deixa de ser surpreendente ver Marcelo afundar-se nas suas próprias contradições. O debate com Marisa Matias teve esse condão.
Se por um lado, os anos de televisão permitiram que o Professor ganhasse uma visibilidade inaudita, em larga medida devido a tanta vacuidade; por outro, esses mesmos anos contribuíram para uma acentuada exposição de algumas posições que, se fosse possível, o Professor gostaria de esquecer, pelo menos até às eleições.
Essas contradições abrangem temas como a saúde, o sistema financeiro, a aprovação do anterior governo e até a acção do Tribunal Constitucional. Hoje essas posições podem custar votos, sobretudo quando é necessário conquistar algum espaço ao que resta do centro e à esquerda.
Confrontado com algumas das suas contradições, Marcelo fica limitado ao sorrisos e quando de facto abre a boca para responder sai-lhe invariavelmente um pequeno conjunto de frases inconsequentes.

A estratégia é de resto essa: sorrir, cingir-se ao simplismo e esperar que o dia 24 chegue o mais rapidamente possível. Existe uma multiplicidade de candidatos pouco ou nada interessantes, reconheço. Mas daí a premiar-se a vacuidade, a falsidade e a hipocrisia vai uma longa distância. Será mesmo isto que queremos para a Presidência? Depois de Cavaco Silva não seria expectável uma escolha mais assertiva? Talvez não. A comunicação social já escolheu há muito o Presidente, e nós, parte significativa e talvez suficiente, limita-se a corroborar essa escolha.

Comentários

Paulo Santos disse…
Subscrevo totalmente!

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...