Avançar para o conteúdo principal

Novas medidas do Governo: mais do mesmo

O primeiro-ministro aproveitou a entrevista que concedeu à RTP para anunciar mais algumas medidas para combater a crise e reforçar outras políticas que já tinham sido tomadas. Entre as novas medidas contam-se o alargamento do subsídio de desemprego mais 15 mil pessoas. No que diz respeito ao reforço de medidas entretanto adoptadas, o primeiro-ministro volta a levantar a bandeira das obras públicas como tentativa central para se combater os feitos nefastos da crise. Hoje, dia de debate parlamentar, é previsível que José Sócrates anuncie mais medidas.

Com efeito, o crescimento da taxa de desemprego e as dificuldades a isso associadas não deixam muitas alternativas a este e a qualquer governo democrático: é necessário reforçar medidas de apoio aos muitos portugueses que estão em situação difícil. Mas atenção, essas políticas sociais devem ser bem ponderadas, até porque sabemos que a generosidade do Estado tem sido excessiva e não raras vezes serve como uma almofada confortável que promove a indolência. Isto não se passa tanto com o subsídio de desemprego, mas com outros subsídios.

Outro aspecto a ter em conta na entrevista do primeiro-ministro prende-se com a obstinação com as grandes obras públicas. O primeiro-ministro continua a apoiar toda a estratégia de combate à crise em projectos que, embora já fizessem parte dos planos deste Governo e de outros, têm que ser inseridos num enquadramento diferente. Além disso, há que ter em consideração a questão do endividamento do Estado português - esta é uma questão absolutamente ignorada pelo Governo. Poucos terão dúvidas que esta irresponsabilidade vai ter custos incomensuráveis para as gerações vindouras.

Independentemente do período pré-eleitoral que se vive e das tentações que o mesmo suscita, o primeiro-ministro e restantes membros do Governo não podem sucumbir à teimosia mais desenfreada e a tentações eleitoralistas. É imperativo que se reconheça o seguinte: a despesa do Estado está a aumentar (designadamente a despesa que visa debelar as dificuldades sociais), a receita já baixou, no primeiro trimestre, consideravelmente, fruto da retracção da economia e subsequentemente da menor receita fiscal - só esta conjuntura pode vir a ser dramática para o equilíbrio orçamental. A isto acresce a teimosia de se insistir na construção de obras faraónicas sob o pretexto que as mesmas revitalizam a economia, esquecendo-se porém do custo assolador que as mesmas têm a médio e longo prazo. O resultado só poderá ser um: a crise vai acabar por passar, Portugal vai continuar a discutir as reformas que nunca se realizam e o défice vai acabar por disparar e será mais uma vez pelo lado da receita que se vai combater esse défice excessivo. Consequentemente, uma subida de impostos será certamente uma realidade.

Notícia in Público online: http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1375771&idCanal=12

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...