Avançar para o conteúdo principal

Globalização e liberalismo

A globalização, fenómeno acelerado pelo avanço no domínio das novas tecnologias de informação e comunicação, é considerado por todos como sendo de carácter irreversível. Indubitavelmente, a matriz neoliberal que caracteriza, em larga medida, a globalização tem contribuído para o aumento das desigualdades sociais e para a ideia instalada de os direitos sociais têm os dias contados. Embora se registe uma diminuição acentuada dos níveis de pobreza que assolam países como a China e a Índia, não é menos verdade que existem continentes que passam ao lado dos efeitos milagrosos dessa globalização, e que, num outro plano, o bem-estar social outrora conquista dos países ocidentais, designadamente da Europa, são reiteradamente postos em causa.
Por outro lado, a fé cega nos mercados exige que os Estados abandonem aquilo que os caracteriza, em particular, no que diz respeito à prestação de serviços na saúde, educação ou até mesmo na justiça. É também neste mundo globalizado que assistimos a países cuja mão-de-obra é desprovida de qualquer salvaguarda dos direitos sociais a competirem directamente com países em que essa salvaguarda representa uma conquista histórica e civilizacional. São estas incongruências que, mais cedo ou mais tarde, poderão minar irreversivelmente o sistema capitalista.
Hoje, quando se discute o assunto do aumento dos combustíveis e dos alimentos, o tema da especulação acaba por ser incontornável. É curioso verificar que na era da informação, é a opacidade e a complexidade de muitas operações financeiras que existem e são aceites com toda a naturalidade. Com efeito, enquanto não existir maior regulação e enquanto se insistir na divinização do mercado, estamos a criar um sistema em que as iniquidades aumentarão exponencialmente.
Os arautos do liberalismo que marcam indelevelmente a globalização, insistem na tese da irreversibilidade de muitas mudanças e na necessidade de mudarmos de padrão de comportamento e de vida. A mensagem é, inequivocamente, de uma eficácia notável. De facto, não haverá muito a fazer para inverter o rumo dos acontecimentos. Parece-me óbvio, contudo, que serão os próximos acontecimentos a saírem de uma crise ainda com contornos mal definidos, a poderem dar um contributo para uma reflexão séria sobre um sistema que faz das iniquidades mais um elemento a ser aproveitado. É disso exemplo a exploração dos trabalhadores chineses.
Paralelamente, a reforma da Organização Mundial do Comércio, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, é fundamental para que se encontre um novo rumo para o capitalismo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor. Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página.  Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes. As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência dir...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...