Avançar para o conteúdo principal

A pobreza do discurso

O discurso político tem vindo a conhecer um substancial empobrecimento quer no que diz respeito à forma, quer no que diz respeito à substância. Quem faz parte dos principais partidos políticos esquiva-se a discussões relevantes e alimenta-se de minudências, ou, ainda, adopta a versão política "stand up comedy", mesmo carregada de sobranceria e sem qualquer resquício de graça. O primeiro-ministro parece querer inaugurar esta forma de fazer política.
O PS, na pessoa do seu líder, adopta um discurso mais parcimonioso, mas longe de ser contundente.
Os restantes partidos da oposição, mesmo que os seus líderes se mostrem donos e senhores da oratória e da dialéctica, mantêm-se arredados do interesse da comunicação social que escolhe invariavelmente curtos trechos do discurso incipientes, fragmentados e desprovidos de interesse.
Resta o Presidente da República, um fiel ajudante do Governo, cujo discurso é consonante com a vacuidade do discurso do próprio Governo. Não existem muitas formas de defender o indefensável.

Acontece amiúde que o discurso dos políticos dos principais partidos remete-nos para uma passagem do livro 1984 de George Orwell que ilustra bem a pobreza de falamos: "... teve a curiosa sensação de não se tratar de um autêntico ser humano, mas de uma espécie de manequim. Não era o cérebro do homem que emitia ideias; era a laringe que emitia sons. O que saía da boca eram palavras, mas não era fala no verdadeiro sentido; era um barulho sem consciência, como o grasnar de um pato".

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

O anacronismo do PCP

Domingos Lopes, destacado militante comunista, decidiu abandonar o partido e explicar o porquê desse abandono. As explicações deste militante vão na mesma linha de outros que se afastaram voluntariamente ou que foram convidados a sair e centram-se na aversão do partido ao diálogo, a dificuldade visível em lidar com a pluralidade de opinião, e na ortodoxia cega que este partido demonstra ter em relação ao que se passa no mundo. É por demais evidente que a saída do militante em questão não terá sido fruto do acaso, a pouco menos de duas semanas de um importante período eleitoral. As razões que estão subjacentes à saída de Domingos Lopes poderão não ser totalmente conhecidas, mas aquilo que é enunciado pelo ex-militante do PCP em matéria de visão do mundo e democracia interna do partido já é sobejamente conhecido. Aliás, as opiniões de dirigentes do PCP sobre regimes totalitários como o norte-coreano já não provocam espanto em ninguém. Dentro do partido há quem se reveja nototalitarismo ...