Avançar para o conteúdo principal

Sob o signo da chantagem

Hoje discute no Parlamento o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) do Governo. Ontem a agência de notação financeira Fitch cortou o rating português, passando de AA para -AA. O ministro das Finanças aproveitou a deixa para exercer maior pressão sobre o PSD no sentido deste votar favoravelmente ao PEC, isto numa altura em que se sabe que todos os restantes partidos da oposição vão manifestar a sua recusa em aceitar este PEC, designadamente o projecto de resolução.

O Governo, na figura do ministro das Finanças, adoptou uma estratégia que poderá surtir efeito: passar o onús da estabilidade económica e até política para o PSD que se encontra numa fase de profunda indecisão - os quatro candidatos à liderança do partido vão a votos amanhã. O Governo e o PS transformam assim uma situação profundamente desconfortável, numa outra em que os olhos do país estão fixados no PSD. Pelo caminho o país assistiu a um Governo que quando se referia ao PEC, oscilava entre a pura mentira e as meias verdades.

O PSD encontra-se numa posição de grande complexidade. Se der a sua aprovação, ou abstenção fa-lo-á contra o seu programa eleitoral e contra a posição de dois dos candidatos à liderança - os dois candidatos mais fortes -; se optar por rejeitar o PEC será acusado de colocar os interesses partidários acima dos interesses do país, tendo em conta que o rating português será muito provavelmente cortado novamente.

Pessoalmente, sou da opinião que a situação política actual é insustentável e para se abrir uma crise, que se faça agora antes que este PEC seja aplicado. Se assim não for, as diversas negociações no Parlamento vão seguramente dar origem a novas crises. O PEC não serve a nenhum dos partidos da oposição e não serve claramente ao país. Trata-se de mais um remendo para os próximos anos que está longe de resolver os problemas estruturais da economia portuguesa. De um modo geral, o PEC não tem uma visão de futuro, aquilo que Portugal mais necessita.

As consequências da inexistência de um consenso sobre o PEC são evidentes: o rating da dívida portuguesa sofrerá novos cortes e, consequentemente, a imagem da economia portuguesa aos olhos dos mercados sofrerá uma degradação. Todavia, continuo a a afirmar que o actual Governo não tem capacidade para cumprir a legislatura, e abrir uma crise agora é só antecipar que aí vêm. Por outro lado, não se compreende a teimosia do Governo com as grandes obras públicas, deixando para segundo plano outros tipos de investimento público. Enquanto isso, pede-se aos portugueses - à anódina classe média portuguesa - que faça novos sacrifícios. Quanto a formas de enorme despesismo como tem sido o caso das parcerias público-privadas e as próprias empresas do Estado, a resposta do Governo revela uma tibieza confrangedora. É mais fácil pedir novos sacrifícios aos já depauperados cidadãos de classe média.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

A outra doença

Quando todos se empenham no combate ao perigoso vírus, outras doenças subsistem, das quais se destacam a imbecilidade de líderes como Donald Trump e Jair Bolsonaro e uma União Europeia que pouco se esforça para mostrar algum resquício de espírito de união. Agora aparece o Presidente do Eurogrupo e também ministro das Finanças português, pouco entusiasmado, a apresentar um pacote de 500 mil milhões de euros de dívida, perdão, ajuda. Desses 500 mil milhões sobram algumas migalhas para Portugal. De resto, a Europa continua dividida entre países como a Alemanha e os Países Baixos e os países do sul. O egoísmo gritante de uns matará o que resta desta anedota, como quase matou em 2008.. Entretanto, e enquanto os líderes dessa Europa aplicam as suas energias em bloquear soluções, o fascismo vai fazendo o seu caminho, livremente, na Hungria e na Polónia, Estados-membros da UE. Havermos de superar o vírus que paralisou o mundo, mas dificilmente resistiremos à doença do egoísmo nesta espéci...