Avançar para o conteúdo principal

Orçamento de Estado para 2009

A apresentação do OE (Orçamento de Estado) começou mal: depois de horas de atraso, o ministro das Finanças disse aos Portugueses que o atraso implicava a apresentação e entrega do documento em duas fases. Por essa razão torna-se difícil fazer um comentário genérico sobre o OE para 2009.
Todavia, o que salta à vista é que este é um Orçamento virado para as eleições de 2009 – fica por saber se não houvesse uma crise financeira internacional, o Orçamento seria ou não semelhante ao que foi apresentado. O documento é vendido como sendo mais um exercício de rigor – não pondo em causa a consolidação das contas públicas – mas também como sendo uma forma inequívoca de socorrer as empresas, em particular as pequenas e médias, e as famílias.
Em síntese, há medidas que visam prestar auxílio às empresas com a baixa de IRC, alterações no pagamento por conta, mais benefícios fiscais para quem investir. O investimento público vai subir 4 por cento. Há mexidas, pouco significativas, no imposto automóvel, enquanto o imposto sobre o tabaco volta a subir; as taxas moderadoras serão também reduzidas; aumentos salariais acima da inflação para funcionários públicos; as cadeiras de transporte de crianças passaram a ter IVA à taxa de 5 por cento; procura-se dar mais incentivos a quem arrendar casa e aos senhorios, incentivos em matéria fiscal; criação de um fundo para ajudar as famílias endividadas, através da possibilidade de, durante algum tempo, pagar um valor mais baixo de renda, passando à condição de inquilino, mas podendo, mais tarde, regressar à condição de proprietário.
Em linhas gerais, o Orçamento de Estado visa fazer face à crise financeira, esquecendo contudo que o país atravessa uma crise mais estrutural que nos leva rapidamente ao empobrecimento, consequência, em larga medida, da incompatibilidade do modelo económico e do modelo social. O actual Governo prefere ignorar essa questão que está no cerne do empobrecimento do país. Mas o OE, numa primeira análise, parece em consonância com o período eleitoral que se aproxima.
O Governo colhe assim os frutos do seu trabalho passado em matéria de redução do défice. No entanto, o OE está longe de estar isento de riscos: as expectativas do Governo podem, de facto, sair goradas. A previsão de crescimento apontada pelo Executivo pode não se concretizar, pode haver menos receitas em impostos. Os números apontados para o desemprego parecem também pouco realistas. Por outro lado, a insistência no investimento público como motor da economia, através da construção de obras faraónicas é, no mínimo, discutível, ainda para mais na actual conjuntura.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

O anacronismo do PCP

Domingos Lopes, destacado militante comunista, decidiu abandonar o partido e explicar o porquê desse abandono. As explicações deste militante vão na mesma linha de outros que se afastaram voluntariamente ou que foram convidados a sair e centram-se na aversão do partido ao diálogo, a dificuldade visível em lidar com a pluralidade de opinião, e na ortodoxia cega que este partido demonstra ter em relação ao que se passa no mundo. É por demais evidente que a saída do militante em questão não terá sido fruto do acaso, a pouco menos de duas semanas de um importante período eleitoral. As razões que estão subjacentes à saída de Domingos Lopes poderão não ser totalmente conhecidas, mas aquilo que é enunciado pelo ex-militante do PCP em matéria de visão do mundo e democracia interna do partido já é sobejamente conhecido. Aliás, as opiniões de dirigentes do PCP sobre regimes totalitários como o norte-coreano já não provocam espanto em ninguém. Dentro do partido há quem se reveja nototalitarismo ...

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...