Avançar para o conteúdo principal

O Museu Salazar

O PS, PCP e Bloco de Esquerda manifestaram o seu profundo desagrado com a ideia de se criar um Museu Salazar, no seguimento das intenções da Câmara Municipal de Santa Comba Dão. O protesto tem o seu fundamento, mas mais do que isso não se consegue perceber muito bem que tipo de museu seria, e qual seria o seu conteúdo. Estes partidos políticos alertam para o perigo do local se tornar destino de peregrinação e da possibilidade de existir um qualquer culto da personalidade.
Com efeito, a existência de um Museu dedicado exclusivamente a Salazar parece uma ideia sem grande nexo. Se estivéssemos a falar de um museu sobre o período do Estado Novo, já faria algum sentido, agora um Museu dedicado exclusivamente à figura de Salazar não é seguramente uma ideia feliz.
A possibilidade de Santa Comba Dão se tornar um local de peregrinação não é, apesar de tudo, assim tão rebuscada. De facto, em alturas de maior crise social, de maior descrença em relação ao regime político e aos partidos políticos, o extremismo tende a conhecer novos terrenos para se proliferar. Por outro lado, a ideia de que poucos adularão a imagem de Salazar pode não ser exactamente verdade; não foi fruto de uma infeliz coincidência que esta figura tenha saído vencedora de um concurso de televisão que contava com os votos dos telespectadores.
De uma forma geral, não se deve exacerbar as consequências de um hipotético Museu erigido a Salazar, mas também não se deve cair no facilitismo de desvalorizar por completo essas mesmas consequências. Afinal de contas, Salazar ainda anda na boca de muita gente, e não se trata apenas de uma minoria que pretende exaltar a imagem do Presidente do Conselho.
Em síntese, os tempos são manifestamente conturbados – caracterizados pela incerteza no futuro, pela perda de valores e referências e pelo total descrédito no regime e, muito em particular, numa classe política incapaz de dar respostas às angústias dos cidadãos. Este contexto é favorável ao recrudescimento de movimentos – que não têm necessariamente de ser de natureza política – que adulam o extremismo, saudosistas de um passado, amiúde, mal explicado, iludidos por uma ideia falsa de um homem providencial.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Normalização do fascismo

O PSD Açores, e naturalmente com a aprovação de Rui Rio, achou por bem coligar-se com o "Chega". Outros partidos como o Iniciativa Liberal (IL) e o CDS fizeram as mesmas escolhas, ainda que o primeiro corra atrás do prejuízo, sobretudo agora que a pandemia teve o condão de mostrar a importância do Estado Social que o IL tão avidamente pretende desmantelar, e o segundo se tenha transformado numa absoluta irrelevância. Porém, é Rui Rio, o mesmo que tem cultivado aquela imagem de moderado, que considera que o "Chega" nos Açores é diferente do "Chega" nacional. Rui Rio, o moderado, considera mesmo que algumas medidas do "Chega" como a estafada redução do Rendimento Social de Inserção é um excelente medida. Alheio às características singulares da região, Rui Rio pensa que com a ajuda do "Chega" vai tirar empregos da cartola para combater a subsidiodependência de que tanto fala, justificando deste modo a normalização que está a fazer de um pa...

Direitos e referendo

CDS e Chega defendem a realização de um referendo para decidir a eutanásia, numa manobra táctica, estes partidos procuram, através da consulta directa, aquilo que, por constar nos programas de quase todos os partidos, acabará por ser uma realidade. O referendo a direitos, sobretudo quando existe uma maioria de partidos a defender uma determinada medida, só faz sentido se for olhada sob o prisma da táctica do desespero. Não admira pois que a própria Igreja, muito presa ao seu ideário medieval, seja ela própria apologista da ideia de um referendo. É que desta feita, e através de uma gestão eficaz do medo e da desinformação, pode ser que se chumbe aquilo que está na calha de vir a ser uma realidade. Para além das diferenças entre os vários partidos, a verdade é que parece existir terreno comum entre PS, BE, PSD (com dúvidas) PAN,IL e Joacine Katar Moreira sobre legislar sobre esta matéria. A ideia do referendo serve apenas a estratégia daqueles que, em minoria, apercebendo-se da su...

A morte lenta de democracia

As democracias vão morrendo lentamente. Exemplos não faltam, desde os EUA, passando pelo Brasil. No caso americano cidades como Portland têm as ruas tomadas por forças militares, disfarçadas de polícia, que agem claramente à margem do Estado de Direito, uma espécie de braço armado do Presidente Trump. Agressões, sequestros, prisões sem respeito pelos mínimos que um Estado de Direito exige, são práticas reiteradas e que ameaçam estender-se a outras cidades americanas. Estas forças militares são mais um sinal de enfraquecimento da democracia americana. Recorde-se que o ainda Presidente ameaça constantemente não aceitar os resultados que saírem das próximas eleições, isto claro se perder.  No Brasil a história consegue ser ainda pior e mais boçal. A família Bolsonaro e as milícias fazem manchetes de jornais.  Em Portugal um partido como o "Chega" é apoiado por proeminentes empresários portugueses, como a revista Visão expõe na sua edição desta última sexta-feira. A democr...